Nasoni e a Torre dos Clérigos que fez o Porto Olhar para o Céu

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Para a minha alma eu queria uma torre como esta, /assim alta, /assim de névoa acompanhando o rio […]”. Jorge de Sena “Metamorfose”

Há cidades que se escrevem em pedra. O Porto é uma delas. No meio do emaranhado das estreitas e sinuosas ruas, onde o granito parece ter nascido com os homens, ergue-se uma agulha que aponta o céu: a Torre dos Clérigos. É o monumento português mais visitado a seguir ao Mosteiro dos Jerónimos (Lisboa). Os seus 225 degraus são anualmente calcorreados por quase dois milhões de visitantes. Do alto da torre, a cerca de 76 metros de altura, abre-se a vista panorâmica sobre o Porto, o Douro e, em dias limpos, até o mar.

Antes, porém, de falarmos sobre essa deslumbrante paisagem que se abre lá no cimo, fixemo-nos na construção desta obra-prima de arquitetura, a qual nasceu também como a segunda vida de um homem – Nicolau Nasoni, que antes pintava céus em abóbadas e decidiu trocar o efémero da ilusão da pintura pela eternidade da pedra. E nesse gesto mudou a cidade do Porto — e mudou-se ele.

Toscano de nascimento, artista de temperamento barroco, Nicolau Nasoni chegou a Malta em 1722 e ali deixou a sua marca nos céus pintados de igrejas e palácios. Mas foi em setembro de 1725 que a sua viagem mudou de rumo. Chamado a Portugal para intervir na Sé do Porto, trouxe consigo pincéis, pigmentos e um olhar ousado, capaz de reinventar o espaço sagrado.

Em Malta, Nasoni tinha deixado a sua marca nos salões da Ordem de Malta, na abóbada do albergue dos Cavaleiros, na catedral de São João Baptista. Todos receberam a sua mão de ilusionista. No Palácio do Grão-Mestre, ao serviço de D. António Manuel de Vilhena, deixou a sua obra-prima maltesa: um ciclo pictórico onde a diplomacia portuguesa se cruzou com o barroco italiano.

Amigo do irmão do Deão da Sé do Porto, D. Jerónimo de Távora e Noronha, homem culto, atento às correntes artísticas da Europa, conhecia bem o atraso decorativo que se fazia sentir nas igrejas portuguesas, ainda presas a modelos mais austeros e conservadores. Não hesitou em trazer o jovem pintor Toscano para o Porto, pois, sabia também que, para dar novo esplendor à Sé, precisava de um mestre com ousadia. O convite era claro: aplicar a sua mestria na Sé do Porto, mais precisamente na sacristia e na capela-mor. E foi ali, com pinturas ilusionistas que nunca se tinham visto em Portugal, que Nasoni deixou os portuenses boquiabertos. O teto já não era teto, mas abria-se como um céu; as paredes deixavam de ser barreira, transformavam-se em caminho.

Mas a verdadeira viragem chegaria em 1731. Aos 34 anos, Nasoni acolhe o projeto de construir a Igreja e Torre dos Clérigos, que foi mais do que uma encomenda: foi a sua metamorfose. Mal sabia ele que essa viagem não era apenas um trabalho temporário: era o início de uma vida nova. Porque se em Malta pintara para enganar o olhar, no Porto iria erguer pedra para tocar o céu. E aqui, mais do que estética, foi a inteligência arquitetónica que se revelou. Nascia o Nasoni arquiteto, visionário que moldaria o rosto barroco da cidade. As suas curvas dramáticas, as fachadas ondulantes e a verticalidade da Torre tornaram-se não apenas monumentos, mas símbolos de uma cidade que aprendeu a olhar para o alto.

Nasoni veio para trabalhar, mas acabou por ficar. Ficou nos altares, nos retábulos, nas ruas e, sobretudo, no coração do Porto. E ficou de tal forma que a sua própria vida se confundiu com a da cidade. Aqui constituiu família, aqui ergueu as suas obras maiores e aqui também conheceu a sua pobreza final. Porque a glória das pedras não se traduziu em fortuna: quando morreu, em 30 de Agosto de 1773, quase esquecido, foi sepultado, a seu pedido, na mesma Igreja dos Clérigos que desenhara — sem lápide, sem epitáfio, sem pompa. E também sem sítio exato. Apenas o silêncio discreto das paredes que ajudou a erguer guardou a memória do seu corpo. Daí a Sala do Enigma. Ali, entre paredes que já ouviram séculos de passos e orações, a história da Torre revela-se como um segredo a ser decifrado. O enigma não está apenas nas palavras ou nos objetos expostos, mas no próprio convite à curiosidade: quem foi Nicolau Nasoni? Porque é que a Torre se tornou tão icónica? Que mistérios guardam os altares, as pedras e as devoções ali reunidas?

FOTO: João Nunes da Silva

A sala funciona como um prólogo de viagem: antes de subir, o visitante é desafiado a olhar para além da evidência, a entrar no espírito de descoberta que sempre marcou a relação do Porto com o monumento. É um jogo subtil, entre o passado e o presente, que transforma a visita numa espécie de caçada ao tesouro — mas o tesouro é a própria história, revelada aos poucos, degrau a degrau.

A Torre não é apenas um marco no horizonte. É a marca de uma escolha. Nasoni podia ter passado, mas ficou. Ficou nos traços dos altares, nos retábulos dourados, nos pormenores quase escondidos que só se revelam a quem olha devagar. Ficou sobretudo nesta silhueta que, dia após dia, recorda ao Porto que também os forasteiros sabem amar a cidade como se fossem da casa.

E talvez seja isso que sentimos, ao erguer os olhos: não vemos só pedra. Vemos pertença e história. Foi junto à Porta do Olival que Nasoni fez emergir uma sede imponente para a nova irmandade. Era uma das antigas entradas das Muralhas Fernandinas que protegiam a urbe. Esta posição estratégica conferia-lhe um papel crucial na vida quotidiana dos habitantes que residiam fora das muralhas, servindo como ponto de abastecimento de água essencial.

O Porto tem a particularidade de crescer sempre a partir de dentro, como quem abre sucessivas portas no mesmo coração. Foi assim no século XVIII, quando a prosperidade do vinho do Douro, controlado pela Companhia Geral da Agricultura das Vinhas, encheu os cofres e tornou possível um ambicioso plano de melhoramentos. De repente, o velho burgo deixou-se atravessar por ruas mais largas, muralhas foram derrubadas e ergueram-se novos edifícios que ainda hoje definem a cidade: o Hospital de Santo António, o Quartel de Santo Ovídio, a Cadeia da Relação.

Mas antes das pedras novas, havia o Olival. Durante séculos, um extenso olivedo deu nome a ruas e lugares — Rua das Oliveiras, Lugar das Oliveiras, Campo do Olival. A terra, pertencente ao bispo e ao cabido, guardava também histórias mais sombrias: o Adro dos Enforcados, onde se sepultavam os que não tinham direito a outro chão. Foi sobre esse terreno, com o peso da memória, que Nasoni levantou a igreja e a Torre dos Clérigos, dando ao espaço uma verticalidade inesperada, como se o Porto quisesse, de uma vez por todas, levantar os olhos.

Nesse Porto do início do século XVIII, o clero não vivia tempos fáceis. Muitos padres, pobres ou doentes, dependiam da boa vontade das confrarias para terem apoio nos últimos dias.

Voltemos por isso ao início da história que é como quem diz ao berço da Irmandade dos Clérigos a partir da fusão de três instituições. Recuperamos a sua história fundacional através das palavras do então Presidente da Irmandade, o Cardeal D. Américo Aguiar, numa entrevista ao jornal O Tripeiro nas comemorações dos 250 anos da Torre: Havia três instituições espalhadas pela cidade, cada uma com a sua devoção e o seu espaço: a Irmandade de São Pedro ad Vincula, que funcionava no antigo Colégio dos Meninos Órfãos, hoje Reitoria da Universidade do Porto; a Irmandade de São Filipe Néri, ligada aos Padres do Oratório, na Igreja dos Congregados, junto à estação de S. Bento; e a Irmandade dos Clérigos Pobres, que tinha assento na Misericórdia do Porto.” Três casas, três histórias, um mesmo propósito. Em 1707, decidiram unir-se numa só: nascia a Irmandade dos Clérigos.

Aos poucos, foram ganhando identidade própria. Criaram regras, escolheram um brasão que juntava símbolos dos três padroeiros — Nossa Senhora, São Pedro e São Filipe Néri — e começaram a sonhar com uma casa só sua. Afinal, até então, reuniam-se de favor na igreja da Misericórdia.

A partir desse desejo começa a desenhar-se uma das histórias mais emblemáticas da cidade. Primeiro, a união; depois, a escolha de uma padroeira; mais tarde, o encontro com o artista toscano que viria a mudar o rosto do Porto. Tudo começa, afinal, neste gesto simples de partilha: três irmandades que se fundem para cuidar dos seus — e acabam por erguer um dos símbolos maiores da cidade.

Os irmãos resolvem então avançar e, ainda nas palavras de D. Américo Aguiar, “pedem o projeto a um jovem que tinha sido “importado” para o Porto pelo Deão da Sé, o cónego presidente do cabido do Porto (pois havia sede vacante na cidade, não havia nessa altura Bispo do Porto) que convidou este jovem arquiteto chamado Nasoni para fazer algumas coisas na cidade, desde logo na catedral”.

O terreno reservado à igreja era tudo menos ideal — longo, mas estreito, limitando seriamente a liberdade criativa. Onde muitos veriam um entrave, Nasoni viu uma oportunidade para romper com convenções. Em vez de colocar as torres na fachada, como era habitual na tradição portuguesa, remeteu-as para a parte traseira do edifício. Esta decisão libertou a frente da igreja, criando um impacto visual mais limpo e elegante. O projeto original previa duas torres, mas acabou por se erguer apenas uma — e que torre! A sua verticalidade tornou-se símbolo do Porto e farol espiritual e comercial da cidade.

E há mais um detalhe delicioso nesta história: cada confraria tinha a sua devoção mariana, e a escolha de uma padroeira comum podia ter dado origem a discórdias. Mas resolveram a questão com simplicidade e fé — por sorteio. Numa urna, colocaram os três nomes: Nossa Senhora do Socorro, Nossa Senhora das Necessidades e Nossa Senhora da Assunção. Quando a mão retirou o papel, a cidade ganhou uma nova devoção. Nossa Senhora da Assunção foi proclamada padroeira da Irmandade dos Clérigos — e permanece até hoje como centro de devoção de uma comunidade que começou humilde, mas deixou uma marca indelével na história do Porto.

Durante a visita podemos passar por detrás da Nossa Senhora da Assunção. FOTO: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

Atualmente, ao subir à Torre dos Clérigos, o visitante encontra muito mais do que a vista sobre o Porto. Entre altares e corredores, surgem também rostos que contam capítulos mais recentes desta longa história. Destacamos alguns retratos. O de D. Jerónimo de Távora Noronha Leme e Cernache, primeiro presidente da irmandade, figura central na história dos Clérigos. A sua liderança foi crucial para a consolidação da Irmandade e para a construção da Igreja dos Clérigos. Ao longo dos anos, os retratos foram sendo acrescentados, representando presidentes e figuras importantes da Irmandade. Há um outro nome que se destaca D. Tomás de Almeida, não só por ter sido presidente, mas sobretudo por ter sido o principal intercessor na doação das relíquias de Santo Inocêncio, que ainda hoje se encontram na igreja embora guardadas e cobertas, sobretudo para não impressionar os visitantes mais jovens.

E, dos presidentes mais recentes, outro nome emerge e também já aqui referido, D. Américo Aguiar, já retratado com as vestes de Cardeal. Foi ele, quem impulsionou o “renascer” do monumento. Antes de 2014, a igreja e a torre atravessavam tempos de desgaste: pedras cansadas, madeiras frágeis espaços a perderem brilho e dignidade. A grande intervenção de restauro devolveu-lhes o esplendor e abriu caminho a uma nova vida, transformando os Clérigos não só em símbolo da cidade, mas também em espaço vivo de cultura, fé e memória.

FOTO: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

A musealização, inaugurada a 12 de dezembro de 2014 — exatamente 251 anos após a inauguração original da igreja — realçou a importância histórica, cultural e arquitetónica deste ícone portuense. Desde então, a igreja, lugar de culto, a Torre e o museu acolhem uma agenda cultural intensa, com música, pintura, escrita, fotografia e exposições permanentes do acervo da Irmandade.

Museu dos Clérigos apresenta um acervo rico constituído por bens culturais de valor artístico considerável, do século XIII até ao século XXI. FOTO: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

Se Nasoni lhe deu forma no século XVIII, foi preciso esperar pelo século XXI para que alguém, com a mesma ousadia, lhe devolvesse a alma.

Exposição “Christus” – Conjunto de obras de arte centradas no tema maior do Cristianismo – JESUS CRSITO. FOTOS: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

Continuando a subir a Torre dos Clérigos, não se sentem apenas as alturas da cidade, mas também a presença do passado gravada na pedra. Entre os corredores e capelas, encontra-se a tábua dos óbitos — um registo silencioso, mas eloquente, dos irmãos que já partiram. Cada nome, cada data, é uma lembrança da Irmandade que começou por cuidar dos padres pobres, doentes ou falecidos, e que ao longo dos séculos manteve viva essa missão.

Tábua dos Óbitos (1826-1850) – Inscrição dos nomes dos irmãos falecidos da Irmandade dos Clérigos. FOTO: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

A tábua não é apenas uma lista. É um memorial que aproxima os vivos dos mortos, lembrando que a história da Torre e da Igreja não se escreve apenas em pedra ou ouro, mas também em vidas dedicadas. Ao lado das pedras erguidas por Nasoni, este relicário de memórias confere ao espaço um peso humano que transcende o tempo: a cidade que se vê do alto tem rosto, tem nomes, tem história. E a Torre sempre esteve ligada a ela e à população.

No século XIX, antes de os relógios estarem amplamente disponíveis, a Torre dos Clérigos desempenhava um papel crucial como indicação oficial do meio‑dia na cidade do Porto. A Meridiana, engenhoca curiosa colocada no topo da Torre, aguardava os raios do sol: uma lente, um fio sensível ao calor e um gatilho ligado a um pequeno canhão ou morteiro. Quando o sol atingia o ponto exato, o fio queimava, o gatilho disparava e a cidade inteira ouvia o estrondo — o sinal do meio‑dia. Os lojistas fechavam as portas para o almoço, os artesãos interrompiam o trabalho, e todos sabiam que o tempo da cidade havia sido oficialmente marcado.

Meridiana, um engenho dotada com um sistema de pistola, cujo gatilho disparava sempre ao meio-dia. FOTO: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

A Irmandade dos Clérigos mantinha o mecanismo gratuitamente. Mais do que ciência ou espetáculo, era um serviço público, um gesto de cuidado com o ritmo da vida urbana. Registos históricos ilustram que os custos com pólvora, manutenção do fio e limpeza da lente eram minuciosamente contabilizados – “contas à moda do Porto”, talvez daí a expressão tão típica. A meridiana tornou-se um marco cultural do Porto: referência no cotidiano, símbolo de precisão e inovação tecnológica da época.

Uma outra ligação era estabelecida através do telégrafo que informava que os barcos estavam mais ou menos a dois dias da chegada à barra do Douro. Nessa altura eram colocadas duas bandeirinhas no topo da torre para, também, avisar os comerciantes que estava na altura de prepararem tudo de modo a receberem com dignidade os ingleses, sem atrasos, de modo a fazer fluir o comércio. Ao longo dos tempos a torre foi-se tornando coração pulsante do Porto.

Ao entrar na Igreja dos Clérigos, não se sente apenas a imponência do espaço ou a verticalidade que Nasoni lhe imprimiu. Há também sons que preenchem o ar, ecoando pelo templo como se fossem vozes antigas. São os dois órgãos de tubos simétricos, guardiões da música litúrgica que acompanha a devoção há séculos.

Órgão tipicamente ibérico, como o indicam os tubos horizontais por cima do púlpito. FOTO: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

Espelhados em harmonia, cada órgão domina um lado do altar, criando um equilíbrio perfeito entre forma e som, a simetria do Barroco. As suas teclas e tubos de madeira e metal não são apenas instrumentos: são testemunhas da história da Irmandade, das missas, das celebrações e dos momentos solenes que ali se desenrolaram. Quando as notas sobem, o espaço parece expandir-se ainda mais, como se o som prolongasse as colunas e os frescos para além do que os olhos podem alcançar. Estes órgãos lembram que a Igreja dos Clérigos não é apenas vista; é ouvida e sentida. E que a arte, seja na pedra, no ouro ou no som, continua a marcar cada visita como uma experiência única e quase sagrada. Diariamente ao meio-dia há concertos com acesso gratuito.

E enquanto a Igreja ecoa, os olhos mergulham num universo onde a pedra se confunde com a pintura. Nicolau Nasoni, com a sua mestria, transformou tetos e abóbadas em cenários que desafiam o olhar e a gravidade. Compreende-se a sua técnica da quadratura, dominada na perfeição, criando a ilusão de profundidade: colunas que parecem prolongar-se para além do teto, arcos que se abrem para céus imaginários e figuras que parecem flutuar no espaço.

FOTO: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

O efeito é quase mágico. À primeira vista, tudo parece sólido e arquitetónico; mas, ao reparar nos detalhes, percebe-se que grande parte do que o olhar alcança é pura pintura. É uma dança entre realidade e ilusão, entre o barroco que se constrói em pedra e o barroco que se projeta no ar.

Na tradição da Quinta‑feira Santa, a cidade do Porto revive rituais antigos, cheios de simbolismo e devoção. Um desses elementos notáveis é a urna desenhada também por Nicolau Nasoni, criada especificamente para substituir a imagem de Nossa Senhora da Assunção na procissão.

Urna da Quinta-feira Santa (Urna do Santíssimo Sacramento) – Desenho de Nicolau Nasoni Século VIII (2 ª metade) – Madeira entalhada, recortada, vazada, policromada, dourada e com aplicação de espelhos | FOTO: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

Esta urna não é um simples recetáculo; é uma obra de arte barroca, com linhas elegantes e detalhes que refletem a sensibilidade artística de Nasoni. Pensada para a solenidade da procissão, protege a imagem e, ao mesmo tempo, transforma‑a em objeto de contemplação coletiva, permitindo que a devoção se manifeste de forma organizada e reverente. Ao observá-la, percebe-se como Nasoni uniu função e estética: a urna cumpre o seu propósito prático sem abdicar da riqueza ornamental que caracteriza toda a sua obra. É um exemplo de como a arte barroca se infiltra nos rituais, tornando cada gesto religioso também uma experiência visual e sensorial que atravessa séculos.

Ao longo da nave, encontram-se três altares barrocos, exuberantes e detalhados, cada um com ornamentos dourados, talha delicada e esculturas que parecem ganhar vida própria. Eles são testemunhos do barroco portuense, onde a arte se fez dramatismo, luz e movimento, convidando o olhar a subir, a explorar cada curva e cada recorte. Um desses altares contém S. André, S. Nicolau e S. Emídio. Entre os santos venerados na Igreja dos Clérigos, São Emídio ocupa um lugar especial. Conhecido como protetor contra os terramotos, ele simboliza a fé na proteção divina frente a forças que escapam ao controle humano. No Porto, onde a devoção aos santos é muitas vezes entrelaçada com a história da cidade, São Emídio recorda que a vida cotidiana e a religiosidade caminham juntas — seja na segurança das construções, na esperança dos fiéis ou na preservação de tradições antigas.

FOTO: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

No coro, destaca-se o altar neoclássico, mais sóbrio e equilibrado, que contrasta com a riqueza ornamental dos altares barrocos. O estilo neoclássico privilegia linhas limpas, proporção e simetria, trazendo uma elegância discreta que orienta o olhar para o sagrado de forma serena, quase meditativa.

Capela-mor de forma retangular oblonga, embelezada com um altar de mármore, com um estilo rococó, projetado pelo arquiteto Manuel dos Santos Porto entre 1767 e 1780, no qual predomina um trono coroado pela imagem da padroeira, Nossa Senhora da Assunção. Nos flancos do retábulo, destacam-se os co-padroeiros da Irmandade dos Clérigos, São Pedro ad Vincula e S. Filipe Néri, duas esculturas de madeira pintadas. FOTO: ANTÓNIO PROENÇA | O Cidadão

Juntos, os altares contam a história de uma igreja que evoluiu ao longo do tempo, harmonizando barroco e neoclássico, devoção e arte, exuberância e sobriedade. Cada visita torna-se, assim, uma viagem pelo tempo e pelos estilos que moldaram a fé e o gosto estético do Porto.

Hoje, a Torre e a Igreja dos Clérigos são muito mais do que pedra ou altura. É história, fé, arte e memória viva, pulsando com cada visitante que sobe os degraus, que observa o Porto do alto, ou se deixa envolver pelas notas dos órgãos, pelo ouro dos altares e pela ilusão de Nasoni. É, em cada detalhe, a cidade escrita em pedra e vida — o Porto em essência.

E depois, claro, chega o desafio dos 225 degraus. Cada sala foi um capítulo, mas a subida é o clímax. Degrau a degrau, o corpo sente o peso da pedra e a alma sente a leveza da perspetiva. No topo, quando finalmente se alcança o miradouro, compreende-se tudo: o enigma, a irmandade, os altares e as devoções encontram o seu eco na paisagem do Porto.

A Torre dos Clérigos não é apenas uma janela para o passado. É também um símbolo da cidade que, como ela, continua a subir.

Subiu em 1917, quando Raul de Caldevilla filmou nas suas alturas o insólito “O Chá nas Nuvens”, transformando a pedra barroca num palco para a modernidade e a publicidade. Voltou a subir em junho de 1991, quando o acrobata espanhol José Rubio escalou os seus 76 metros em homenagem a Nicolau Nasoni, transformando o risco em celebração. Subiu no ano passado ao som do Dj Padre Guilherme com o mote da sua nova imagem “Todos na torre!” Sobe ao longo deste ano histórico que marcam os 300 anos desde a chegada de Nasoni, o seu criador, ao Porto. E sobe em cada visitante que enfrenta os degraus, em cada olhar que do alto descobre o Douro, em cada memória que a cidade grava na sua silhueta. Porque visitar a Torre não é apenas olhar para trás. É perceber que, como o Porto, ela nunca deixou — e nunca deixará — de subir.

NOTA – Esta Crónica não tinha sido possível sem a colaboração da Irmandade dos Clérigos e sem o seu guia Mário Almeida Cerqueira, a quem deixamos um especial agradecimento.

VISÃO 360º

Maria João Coelho



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