“Na casa onde moro, cuido eu”.

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A habitação social precisa de uma revolução humana.

Durante mais de trinta anos trabalhei na área da saúde. Hoje encontro-me ligada à engenharia civil e à gestão da manutenção e reabilitação de empreendimentos de habitação social. E se há algo que estas duas experiências me ensinaram é que nenhum problema humano se resolve apenas com paredes, regulamentos ou assistência.

A habitação social não pode continuar a ser vista apenas como atribuição de casas. Tem de evoluir para um verdadeiro modelo de comunidade participativa.

Nos grandes centros urbanos, os empreendimentos sociais concentram múltiplas fragilidades sociais, económicas e humanas. Durante anos, muitos destes empreendimentos foram acumulando degradação, falta de manutenção e ausência de intervenção preventiva. O resultado está hoje à vista: coberturas envelhecidas, espaços comuns degradados, vandalismo, equipamentos constantemente avariados e custos cada vez mais elevados para os municípios.

A maior questão talvez nem seja financeira. É humana.
Porque ao mesmo tempo que encontramos situações de destruição e ausência de cuidado, encontramos também moradores extraordinários. Pessoas humildes que cuidam das suas casas com enorme dignidade apesar das dificuldades económicas. Isso demonstra que o problema nunca é apenas a falta de recursos. Muitas vezes é a ausência de pertença, de inclusão e de perspetiva de futuro.

Ao longo da minha experiência, tanto na saúde como agora na habitação, aprendi que muitas vezes o estado da casa reflete o estado emocional e social de quem lá vive. Há sofrimento que aparece nas paredes. Há exclusão que se transforma em abandono. Há ausência de esperança que se transforma em ausência de cuidado.
Mas limitar-nos a reparar danos sucessivos nunca resolverá verdadeiramente o problema.

Talvez seja tempo de olhar para a habitação social de forma diferente. Não apenas como um modelo assistencialista, mas como um espaço de inovação social e participação comunitária.

Quando percorremos os empreendimentos sociais encontramos moradores desempregados, reformados ativos ou pessoas com conhecimentos de pintura, jardinagem, limpeza, pequenas reparações ou simplesmente vontade de ajudar. Porque não transformar essa capacidade invisível numa força positiva para o próprio empreendimento?
Porque não criar pequenas bolsas de colaboração comunitária assentes numa ideia simples:
Na casa onde moro, cuido eu.”

Não como obrigação. Mas como participação ativa e sentimento de pertença.
Pequenas equipas comunitárias poderiam colaborar na limpeza dos espaços comuns, manutenção ligeira, cuidado dos jardins, pequenas reparações, apoio a idosos isolados ou dinamização da convivência entre vizinhos.
E talvez o mais importante seja isto: estas formas de participação deveriam poder ser remuneradas sem colocar automaticamente em risco os apoios sociais ou a estabilidade habitacional das famílias.

Hoje, muitas pessoas têm receio de participar ou melhorar a sua situação económica porque qualquer pequeno rendimento pode significar perda de apoios fundamentais. O sistema acaba, involuntariamente, por bloquear percursos de autonomia e inclusão.
Mas para mudar este paradigma é necessária coragem política e social. Coragem para criar modelos mais humanos, flexíveis e inteligentes, onde determinadas atividades úteis à comunidade possam coexistir com mecanismos de proteção social.
A verdadeira inclusão não pode penalizar quem tenta participar, crescer ou sentir-se útil.
Porque uma pessoa que ajuda a cuidar do espaço onde vive deixa de sentir que está apenas numa habitação atribuída. Passa a sentir que pertence verdadeiramente àquele lugar.
E talvez não houvesse tantas casas devolutas, tanta degradação e tanto afastamento entre vizinhos.
Mas existe também outra realidade impossível de ignorar: cada vez mais famílias trabalham diariamente e continuam sem conseguir aceder a uma habitação digna. Não entram nos critérios da habitação apoiada, mas também não conseguem suportar os preços do mercado livre. E quando olham para contextos de vandalismo em alguns empreendimentos sociais surge inevitavelmente um sentimento de injustiça.

Ignorar essa perceção seria um erro. Mas também seria profundamente injusto reduzir todos os moradores da habitação social a uma imagem negativa. A realidade é muito mais complexa e muito mais humana do que isso.
Talvez o maior desafio da habitação em Portugal já não seja apenas construir casas.
Talvez seja reconstruir comunidades.

Porque a verdadeira revolução habitacional não acontecerá apenas através do betão ou das empreitadas. Acontecerá quando conseguirmos devolver às pessoas o sentimento de pertença, utilidade e dignidade.
E talvez tudo possa começar por uma ideia simples: “Na casa onde moro, cuido eu.


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