Descobre-se facilmente, depois de uma perda, que o mundo continua. As reuniões mantêm-se, os transportes seguem horários, as escolas abrem à mesma hora e os dias sucedem-se com a mesma aparência de normalidade. Há qualquer coisa de profundamente estranho nessa continuidade: a sensação de que a vida coletiva prossegue intacta enquanto, para alguém, o tempo mudou de lugar.
Talvez seja precisamente aí que se revele uma das maiores fragilidades da nossa cultura contemporânea: a dificuldade em lidar com a perda. Vivemos numa sociedade orientada para a produtividade, para a aceleração e para a ideia permanente de superação. Aprende-se desde cedo a responder, a adaptar-se, a alcançar objetivos e a recuperar rapidamente dos fracassos. Mas raramente se aprende a habitar a ausência, a interrupção ou a fragilidade provocada pelo luto.
A educação não está à margem desta lógica. Pelo contrário: frequentemente reproduz essa lógica de forma particularmente evidente. A escola prepara para o desempenho, para a avaliação, para a resolução de problemas e para a construção de percursos futuros. Fala-se hoje, e justamente, de competências socioemocionais, de saúde mental e de bem-estar. Contudo, continuam a existir dimensões profundamente humanas que permanecem quase ausentes do espaço educativo — e a perda é uma delas.
A morte continua a ser um dos grandes temas desconfortáveis do espaço público. Mesmo entre adultos, tende a ser evitada, suavizada ou remetida para a esfera privada. Com as crianças, esse desconforto torna-se ainda mais visível. Persiste a ideia de que protegê-las implica afastá-las da dor, evitar conversas difíceis ou acelerar o regresso à normalidade.
No entanto, as crianças experienciam perda, ausência e sofrimento muito antes de possuírem linguagem suficiente para os explicar. E fazem-no, muitas vezes, em silêncio.
Às vezes, esse silêncio manifesta-se de forma quase impercetível: uma criança que deixa de participar, um caderno que permanece fechado durante dias, uma irritabilidade súbita que os adultos interpretam apenas como indisciplina. Nem sempre a escola reconhece o que está por trás dessas mudanças. E, frequentemente, isso acontece porque também os adultos não foram preparados para lidar com o sofrimento — nem com o dos outros, nem com o próprio.
Existe uma expectativa implícita de funcionalidade emocional que atravessa grande parte da vida social: espera-se que as pessoas retomem rapidamente rotinas, responsabilidades e desempenhos. O luto parece aceitável apenas quando permanece discreto, breve e suficientemente invisível para não interromper o quotidiano. Mas a experiência humana raramente obedece a essa linearidade.
As crianças sentem essa pressão de forma particularmente silenciosa. Regressam à escola depois de uma perda e encontram, muitas vezes, um ambiente que não sabe exatamente como acolhê-las. Entre o receio de abordar o tema e o medo de “fazer pior”, instala-se um silêncio feito mais de desconforto do que de indiferença. E essa ausência de palavras pode transmitir uma mensagem subtil, mas poderosa: a de que certas dores devem permanecer invisíveis para não perturbar o funcionamento normal das coisas.
Talvez uma das limitações mais profundas da educação contemporânea seja precisamente esta dificuldade em reconhecer a vulnerabilidade como parte legítima da experiência humana. Fala-se muito em preparar crianças e jovens para o futuro, mas pouco em prepará-los para lidar com aquilo que inevitavelmente faz parte da vida: a perda, a frustração, a doença, a ausência, a finitude.
Isto não significa transformar a escola num espaço terapêutico, nem exigir aos professores respostas para tudo. Significa, antes, reconhecer que educar também implica criar condições para que emoções difíceis possam ser nomeadas, compreendidas e acompanhadas. Implica reconhecer que o sofrimento não desaparece por permanecer ausente das palavras. E que, muitas vezes, aquilo de que uma criança precisa não é de soluções imediatas, mas da possibilidade de não atravessar a dor sozinha.
Essa necessidade não se limita às crianças. Também os adultos vivem perdas enquanto continuam a ensinar, cuidar, avaliar, responder a prazos e sustentar rotinas. Contudo, a cultura profissional dominante raramente admite fragilidade. Valoriza-se a capacidade de continuar, mesmo quando continuar exige um enorme esforço invisível.
Talvez por isso o luto permaneça tão frequentemente isolado. Não porque faltem pessoas, mas porque faltam espaços sociais onde a vulnerabilidade possa existir sem constrangimento, sem urgência de resolução e sem pressão para regressar rapidamente à normalidade.
E, no entanto, no meio dessa dificuldade coletiva em lidar com a perda, surgem por vezes gestos inesperados de grande sensibilidade. Pequenos gestos, vindos muitas vezes dos mais jovens, que não anulam a dor nem pretendem explicá-la — mas que tornam o regresso ao quotidiano ligeiramente mais humano.
A educação tem aqui um desafio importante. Não apenas o de transmitir conhecimentos ou promover competências, mas também o de ajudar a construir uma cultura mais capaz de reconhecer a condição humana em toda a sua complexidade. Uma cultura onde a dor não seja encarada como uma interrupção indevida da vida coletiva, mas como parte inevitável dela.
Porque educar não é apenas preparar para o sucesso, para o desempenho ou para o futuro. É também criar condições para compreender aquilo que inevitavelmente se perde pelo caminho. Reconhecer que existem experiências que não se resolvem, apenas se atravessam. E perceber que a maturidade humana talvez não esteja na capacidade de evitar a fragilidade, mas na coragem silenciosa de permanecer presente diante dela.
Professora e Escritora. Doutorada em Educação














