Galeria Municipal do Porto apresenta instalação de Pia Camil

A artista mexicana Pia Camil participou na iniciativa Conversas de Galeria, na Galeria Municipal do Porto, numa sessão moderada por João Laia, onde apresentou o seu percurso e abordou práticas colaborativas e comunitárias que atravessam o seu trabalho, antes da instalação “Partilhar”, no terreiro da instituição que irá inaugurar este sábado, às 16:00.

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A sessão de quarta-feira, dia 14 de maio, Conversas de Galeria – Pia Camil integrou a programação pública da Galeria Municipal do Porto, reunindo a artista mexicana e o moderador João Laia num encontro centrado no seu percurso, nas suas metodologias de trabalho e na instalação “Partilhar”, prevista para o terreiro da instituição entre maio e outubro que vai ser inaugurada este sábado, 16 de maio, pelas 16:00.

Boa adesão do público para ouvir a artista. Foto Sô-RUI/OCIDADÃO

A conversa foi introduzida pela organização do programa, que enquadrou o ciclo como um espaço de aproximação entre práticas artísticas e debates mais amplos sobre sociedade e política. A sessão foi apresentada como parte de um conjunto de encontros públicos que procuram expandir a discussão em torno da arte contemporânea.

Na abertura, o moderador, João Laia, contextualizou o formato do encontro e a sua relação com o programa da galeria: “As conversas de galeria fazem parte do nosso programa público e tem como objetivo aprofundar um bocadinho a relação entre arte e sociedade, ou arte e política. Costumamos convidar pessoas da área cultural, mas não necessariamente das artes. Decidimos convidar a Pia para este programa, tanto pela sua prática, mas também para sublinhar o projeto que fazemos anualmente, as Conversas ao Ar Livre, que também tem como missão alargar um bocadinho a conversa e recordar o contemporâneo.”

A sessão incluiu ainda uma apresentação biográfica da artista, com referência à sua formação, às suas exposições internacionais e à sua presença em instituições e bienais. A partir desse enquadramento, a conversa evoluiu para o percurso da artista e para as suas primeiras experiências com práticas artísticas.

Percurso e início da prática artística

Pia Camil descreveu o seu contacto inicial com a arte como algo ligado à infância e à educação formal, referindo a influência familiar e o acesso precoce a aulas de arte. A artista sublinhou a transição entre pintura e outros meios durante o percurso académico, incluindo experiências com cinema documental.

“Não sou música, mas tive muita relação com a música e toquei  piano há muitos anos quando eu era jovem, o meu pai era pianista, e a música aconteceu”, confidenciou, acrescentando: “Também escrevi, desde que me lembro, porque foi a minha primeira aproximação à arte. A minha mãe, eu acho que ela escolheu isso! Então tive aulas de arte na minha infância. E também fiz um monte de livros à mão, talvez era que eu gostava mais de fazer.”

Operário amarra peça usando uma corda marítima amarela especialmente produzida para esta instalação do terreiro da GMP. Foto SÔ-RUI/OCIDADÃO.

No decorrer da sua formação, a artista referiu a experimentação com diferentes linguagens e a integração de práticas colaborativas já no final dos estudos, incluindo um projeto de documentário realizado com crianças em centros de detenção.

A passagem para práticas mais expandidas surge, segundo a artista, associada à necessidade de experimentar outras formas de produção fora da pintura.

Banda, colaboração e práticas coletivas

Um dos momentos centrais da conversa incidiu sobre a experiência da artista numa banda criada após o regresso ao México, depois dos estudos no estrangeiro. Este projeto é apresentado como um ponto de viragem na sua prática, ao integrar música, performance e processos colaborativos.

Pia Camil contextualizou o surgimento da banda como resultado de um regresso inesperado ao México após um período em Londres:

“Sim, quando terminei meu mestrado, em 2009, eu estava a morar em Londres. Naquela época, eu estava a trabalhar lá. Fui deportada para o México (risos). Tinha um bom amigo em Londres, que também é mexicano, o Estevão, ele é músico e artista, e tornamo-nos muito próximos.”

A partir desse momento, a criação da banda surge como uma prática experimental que articula música, criação visual e colaboração contínua.

“Então decidimos fazer uma residência “auto-imposta”, por um mês, ou dois meses talvez, ou provavelmente um Verão, ocupamos esse espaço, e decidimos só nos encontrar nesse espaço, todos os dias e fizemos de tudo! A banda se chamou Empresplandor.”

A artista descreve a banda como um espaço de experimentação coletiva, onde se cruzavam colagens, música, desenho e construção de cenários. A prática incluía também eventos abertos ao público, com participação direta.

Pia Camil durante a montagem. Foto SÔ-RUI/OCIDADÃO

Instalação, participação e economia alternativa

A conversa abordou igualmente projetos desenvolvidos em contexto institucional, nomeadamente trabalhos que envolvem participação pública e sistemas de troca não monetários. A artista referiu uma instalação em formato de loja, onde objetos eram trocados por peças de vestuário.

“Então tu não tinhas que usar dinheiro, se viste algo que  gostavas, tu trocavas por outro objeto, era tipo um sistema de troca direta.”

A lógica de participação e circulação de objetos surge como crítica às estruturas tradicionais do mercado artístico, ao mesmo tempo que introduz dinâmicas de colaboração.

Pia sublinhou o papel das histórias associadas aos objetos, destacando a dimensão individual dentro de sistemas coletivos de troca.

Peça a ser içada. Foto SÔ-RUI/OCIDADÃO

“Partilhar” e a instalação no Porto

A instalação “Partilhar”, que será apresentada no terreiro da Galeria Municipal do Porto, foi abordada no contexto da sessão como extensão das práticas anteriores da artista. O projeto envolveu a recolha de roupa em segunda mão junto de residentes do Porto, posteriormente integrada numa instalação têxtil de grande escala.

A obra foi apresentada como um dispositivo que permite a observação e ocupação do espaço pelo público, articulando material recolhido e contexto local.

A artista destacou, ao longo da conversa, a importância da participação e da colaboração na construção do trabalho, bem como a relação entre materialidade e contexto social.

Moda, colaborações e indústria cultural

A conversa integrou também referências a colaborações com a indústria da moda, incluindo projetos desenvolvidos com marcas internacionais. A artista referiu o interesse em trabalhar com diferentes contextos de produção, mantendo uma ligação a práticas colaborativas.

Espaços comunitários e práticas paralelas

Outro eixo central da sessão foi a criação de espaços independentes de encontro e produção cultural, incluindo estúdios abertos, ciclos de leitura e eventos performativos.

Pia Camil descreveu estas práticas como parte integrante do seu trabalho, ainda que nem sempre enquadradas como arte institucionalizada.

“Eu acho que eu fiz de tudo. Comecei fazendo tudo sozinha. Na verdade, comecei a fazer instalações muito tarde na minha carreira. Por muitos anos, eu estive apenas fazendo a minha arte nas ruas.”

A relação entre prática artística e vida quotidiana surge como elemento recorrente, com destaque para a construção de espaços de partilha e colaboração.

Pia Camil verificando os trabalhos. Foto SÔ-RUI/OCIDADÃO

Ruralidade, comunidade e transformação do contexto

A sessão incluiu também referências à mudança de contexto geográfico da artista, atualmente a viver fora de grandes centros urbanos. Esta transição foi associada a alterações na prática artística, incluindo o regresso à pintura e o envolvimento com práticas agrícolas.

Pia Camil referiu a reorganização do seu trabalho em função do novo contexto e a integração de outras formas de colaboração, incluindo relações com o ambiente natural.

A conversa terminou com a abertura ao público, permitindo questões e comentários. Foram abordados temas como intervenções na rua, relações com instituições e processos de produção artística.

A sessão encerrou com agradecimentos e a referência à abertura da instalação na Galeria Municipal do Porto, sábado dia 16 de maio, pelas 16:00.

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