
Como é possível, uma mulher que compôs “Gracias a la Vida” um hino à vida! Que foi “cantautora”, poetisa, pintora, escultora, bordadeira, ceramista e escritora, tenha aos quarenta e nove anos posto fim à sua vida. O quanto ficou por dizer, por escrever, por pintar, por esculpir, por compor e por cantar…
Filha de Nicanor Parra (professor de música) e de Clarissa Sandoval (camponesa), nasceu na província de Ñuble, no Chile, no dia 4 de Outubro de 1917. Com oito irmãos e poucos recursos económicos, Violeta iniciou cedo a sua carreira e apenas com doze anos já compunha as suas primeiras canções ao violão. Deixou cedo a escola e trocou-a para cantar em bares e em circos. Com apenas quinze anos e órfã de pai, formou com a sua irmã Hilda a dupla “Las Hermanas Parra”. Foi durante as suas atuações que conheceu o futuro marido – Luís Cereceda – com quem casou em 1938. Os seus filhos, Ángel e Isabel também foram dois compositores e intérpretes com alguma importância.
Em 1945, voltou para Santiago, onde se juntou aos filhos para realizar alguns concertos. Em 1949, novo casamento, agora com Luís Acre e dessa união teve duas filhas, Luísa Cármen e Rosita Clara, que apenas resistiu à vida durante um ano…
As pesquisas nas raízes folclóricas deram-se por volta de 1952 e dessa pesquisa compôs os primeiras canções que a tornaram famosa. Catalogou cerca de três mil canções tradicionais que foram publicadas no livro “Cantos Folclóricos Chilenos” e no disco “Cantos Campesinos”.

Foi contratada pela Rádio Chilena e produziu alguns programas radiofónicos de música folclórica. Em 1955, recebeu o prémio “Caupolicán” e atuou na Polónia, em Londres, na União Soviética e em Paris, onde viveu dois anos. Voltou ao Chile e para a “Odeon” gravou uma coleção de discos “El Folklore de Chile” e o seu programa de rádio “Canta Violeta Parra”, obteve imenso sucesso.
Depois de ter ajudado a criar um museu de arte popular na universidade de Concepción, dedicou-se às artes plásticas e expôs pela primeira vez na Feira de Artes Plásticas de Santiago. Iniciou um namoro com Gilbert Favré, um musicólogo e antropólogo suíço. No início dos anos sessenta foi viver para a Argentina, onde obteve enorme sucesso. A “Nueva Canción Chilena”, foi inspirada no seu regresso a Paris, onde nasceram as canções “¿Qué dirá el Santo Padre?”, “Arauco tiene una pena” e “Miren cómo sonríen”, e escreveu o seu primeiro livro “Poesía popular de Los Andes”.
Expôs no Museu do Louvre, entre 18 de Abril e 11 de Maio de 1964, as suas obras (pinturas, “arpilleras” e esculturas em arame), sendo a primeira artista latino-americana a expor uma exposição individual, num dos maiores museus do mundo. Em 1966, viajou para a Bolívia, onde atuou em conjunto com Gilbert Favré e gravou seu último disco: “Ultimas Composiciones”, considerado como o seu melhor disco, que contém canções como: “Maldigo del alto cielo”, “Gracias a la vida”, “El albertío”, “Run Run se fue pa’l norte” e “Volver a los 17”.

O desgosto amoroso em relação ao terceiro marido foi mais forte do que a vida que ela abandonou a 5 de Fevereiro de 1967. Após sua morte, foram publicadas diversas biografias, tais como: “El libro mayor de Violeta Parra”, de Isabel Parra, publicado em 1985, pela editorial”Meridión”, e “Violeta se fue a los cielos”, de Ángel Parra, publicado em 2006, que serviria de base para o filme de 2001, realizado por André Wood.
“La Carta”, cantada em momentos de enorme comoção revolucionária, nas barricadas e nas ocupações, tem entre os seus versos “Os famintos pedem pão; chumbo lhes dá a polícia”. E, por isso, é considerada a mãe da canção de protesto pela luta dos direitos dos oprimidos. As suas canções foram gravadas por grandes intérpretes, como: Joan Baez, Milton Nascimento, Elis Regina, Mercedes de Sousa, Joaquín Sabina, entre outros.
Na canção “Rin de Angelito”, ela conta a história de um bebé pobre: “No seu bercinho de terra um sino vai te embalar, enquanto a chuva te limpará a carinha na manhã”.

Em 2015, no dia 4 de Outubro, foi inaugurado o “Museu Violeta Para” em Santiago do Chile.
Gracias a la Vida
“Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me dio dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en el alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el oído que en todo su ancho
Cada noche y días
Grillos y canarios, martillos, turbinas Ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con el las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la… “
Músico/Colaborador














