Menos Burocracia Não Chega para Criar Valor

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Acreditar que simplificar processos é suficiente para gerar crescimento, é uma tentação recorrente, na Europa.

A proposta apresentada pela Ursula von der Leyen segue essa lógica. Empresas criadas em 48 horas, totalmente online, sem capital mínimo, a custos reduzidos. À primeira vista, excelente! Parece ser um tipo de reforma que finalmente aproxima a Europa da agilidade americana.

Mas vamos lá fazer uma pausa e pensar melhor nisto. O problema do empreendedorismo está na criação de uma empresa? Será? …Não me parece!

Portugal já o percebeu há anos com a ferramenta “Empresa na Hora”. Outros países foram ainda mais longe. Na Estónia, abrir uma empresa é quase um gesto digital automático. No entanto, nenhum destes países se transformou subitamente numa potência global de scaleups.

Porquê?

Porque o problema não é apenas, e simplesmente, administrativo.

O verdadeiro obstáculo ao empreendedorismo na Europa está noutro lugar. Está na capacidade de transformar ideias em escala. Está no acesso ao capital de risco. Está na cultura da tolerância ao erro. Está na fluidez com que uma empresa pode crescer, contratar, falhar e, se necessário, recomeçar.

Simplificar a entrada é importante, mas não resolve o essencial.

A Comissão Europeia fala em libertar o potencial empreendedor da Europa. A questão é a seguinte, o potencial já existe.

A Europa continua a ser um dos espaços mais qualificados do mundo. Forma talento, produz conhecimento, gera inovação científica de elevado nível. Infelizmente, falha de forma sistemática na transformação desse capital em empresas globais não pela falta de ideias, mas pelo excesso de estrutura.

A diferença face aos Estados Unidos não está no momento da criação da empresa. Está no que acontece a seguir. Nos Estados Unidos, o capital acompanha a ambição, falhar é parte do percurso. Na Europa, falhar é um estigma que condiciona o acesso futuro. Nos Estados Unidos, escalar é algo incentivado. Cá na Europa, escalar implica sobreviver a um labirinto regulatório e fiscal que varia de país para país.

A limitação desta proposta é a seguinte, ela reduz o custo de entrada, mas não resolve o as dores de crescimento. E é no crescimento que se cria valor económico.

E se pensarmos bem, encontramos um problema maior. Ao eliminar completamente a exigência de capital mínimo, a Europa pode estar a reforçar um modelo de empresas frágeis à nascença. Empresas que entram facilmente e rapidamente no mercado, mas sem estrutura financeira para resistir. Isso pode aumentar a taxa de mortalidade empresarial sem necessariamente aumentar a qualidade do tecido económico.

Empreender não é apenas criar. É nutrir, sustentar. E sustentar exige mais do que ter um formulário digital simplificado.

Exige capital. Exige mercado. Exige contexto.

Esta proposta é um passo na direção certa. Mas é um passo curto.

O verdadeiro problema da economia europeia não é a falta de empresas. É a falta de empresas que conseguem escalar e competir globalmente. A proposta de Bruxelas pode facilitar o início, mas o futuro do empreendedorismo europeu não será decidido nessas primeiras 48 horas. Será decidido nos anos seguintes. Na capacidade de crescer. Na coragem de investir. E, sobretudo, na disposição coletiva para transformar o talento em poder económico.

Criar uma empresa é fácil. Difícil é construir uma que sobreviva, que cresça e que mude as regras do jogo. É aí que a Europa tem de provar que está preparada.

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