Na passada sexta-feira cheguei ao Clube dos Pensadores alguns minutos atrasada, o suficiente para já ter perdido a apresentação dos convidados e do tema da noite. Num país onde tantas vezes se espera pelos atrasados e os eventos raramente começam à hora anunciada, percebi de imediato que ali a pontualidade não era um detalhe. Era uma regra.
Às 21h30 era para começar.
E começou.
À mesa estavam António Tavares, e Ricardo Arroja e, ao centro, Joaquim Jorge.
Ao longo dos anos, o Clube dos Pensadores tornou-se uma referência nacional no debate de ideias. Muitos atribuem esse sucesso à qualidade dos convidados. E é verdade que por ali passaram algumas das personalidades mais relevantes da vida política, económica e social.
Mas, ao assistir a mais uma sessão, fiquei convencida de que o verdadeiro segredo do Clube não está apenas nos convidados.
Está no método.
Há uma energia muito própria na forma como Joaquim Jorge conduz cada sessão. Recebe os convidados, apresenta-os, faz as perguntas, pede as palmas, organiza a tradicional fotografia final e controla os tempos com um rigor que chega a ser divertido. Faz tudo isto com naturalidade, boa disposição e uma capacidade rara de manter o público envolvido do primeiro ao último minuto.
O mais curioso é que ninguém insiste em prolongar o debate. Não por falta de interesse, porque muitas vezes fica a sensação de que ainda havia muito para dizer, mas porque todos conhecem as regras do Clube dos Pensadores. É assim que funciona. Os convidados sabem-no, o público também.
E talvez seja precisamente por isso que as pessoas regressam.
Quando a conversa começa verdadeiramente a aquecer, termina. Ficamos a pensar nas perguntas que ficaram por fazer, nos temas que mereciam maior aprofundamento e nas respostas que gostaríamos de ter ouvido. Não saímos cansados. Saímos curiosos. Saímos com vontade de mais.
Dias depois li uma publicação de Joaquim Jorge sobre esta sessão. Dizia ele que talvez a técnica seja deixar quem assiste “com água na boca”. Sorri ao ler a expressão porque percebi imediatamente o que queria dizer. Talvez seja mesmo esse um dos segredos do Clube dos Pensadores.
Foi também através de Joaquim Jorge que conheci o “Chuveirinho”. Confesso que dificilmente o teria descoberto por iniciativa própria. O futebol não está propriamente entre os assuntos que mais me apaixonam. Ainda assim, dei por mim a ouvir algumas conversas e até a rir em vários momentos. Não pelo tema em si, mas pela espontaneidade, pelo humor e pela liberdade que ali se sente.
E talvez essa seja a palavra que melhor define aquilo que encontrei tanto no “Chuveirinho” como no Clube dos Pensadores.
Liberdade.
Liberdade para perguntar.
Liberdade para responder.
Liberdade para discordar.
Liberdade para pensar.
Nem sempre concordo com tudo o que é dito. Nem todos os convidados me despertam o mesmo interesse. Nem todas as opiniões me convencem. Mas essa é precisamente a riqueza destes espaços. O seu objetivo não é confirmar as nossas certezas. É desafiar-nos a ouvir quem pensa de forma diferente.
Ao olhar para a mesa naquela noite de sexta-feira, com Joaquim Jorge ao centro e os convidados de cada lado, percebi que aquela imagem simbolizava bem o espírito do projeto. O foco não está numa pessoa. O foco está no diálogo.
Este ano, o Clube dos Pensadores assinala vinte anos de existência. Duas décadas a promover cidadania, debate de ideias e liberdade de expressão. Num país onde tantos projetos nascem com entusiasmo e desaparecem poucos anos depois, esta longevidade merece destaque. E não deixa de ser simbólico que a celebração dos 20 anos tenha contado com Ângelo Correia, uma figura marcante da vida pública portuguesa.
Talvez seja precisamente por isso que o Clube dos Pensadores continua vivo, atual e relevante.
Porque mais do que organizar debates, Joaquim Jorge criou um hábito de cidadania.
Criou um espaço onde ainda vale a pena ouvir.
Onde ainda vale a pena pensar.
E onde continuamos a sair com a sensação de que ficou qualquer coisa por dizer.
Talvez seja exatamente por isso que continuamos a volta.

Engenheira/chefe de divisão da CM Vila Nova de Gaia















