Em Memória da Kikinha
Dizem que os gatos são distantes, seres de uma independência que beira o egoísmo. Quem diz isto, nunca partilhou a vida com uma mestre silenciosa como a nossa Kikinha. No passado dia 11 de junho, ela partiu, encerrando um capítulo de vinte anos que não foi apenas uma posse, mas uma aula diária de humanidade e amor.
Sei que, para alguns, este sentimento é difícil de compreender. Existem pessoas que olham para a partida de um animal com indiferença, sem entender que a perda de um companheiro de duas décadas é, em tudo, a perda de um membro da família. É um luto que, infelizmente, muitos ainda tentam silenciar ou minimizar, mas quem viveu esta cumplicidade sabe: a dor é real, profunda e legítima.
A Kikinha chegou a casa pelas mãos do meu marido — ela era, desde o primeiro momento, a “menina” dele — para preencher a minha ausência. Confesso que, no início, nem eu queria um gato; tinha receio da rotina, do medo de que estragasse a casa. Mas ela desarmou as nossas resistências. O que esperávamos que fosse uma fonte de transtornos tornou-se a convivência mais perfeita que já conhecemos. Ela nunca estragou nada de relevante; conquistou-nos com a paciência de quem sabia que o nosso laço era para a vida.
Durante duas décadas, a Kikinha foi a testemunha silenciosa das nossas mudanças. Lembro-me, com especial ternura, das fases em que a vida me obrigava a dividir-me entre o Porto e o Algarve. Em momentos diferentes, ela ficou comigo no Algarve, tornando-se o meu porto seguro, ou ficou no Porto com o meu marido. Para ela, a “casa” não era uma morada fixa, mas sim onde quer que estivéssemos.
Tratá-la como um ser humano não foi uma tentativa de humanizar um animal; foi um reconhecimento de que ela possuía uma inteligência emocional que nós, humanos, tantas vezes esquecemos. Havia algo de profundamente reconfortante na sua rotina, na forma como nos chamava, com uma ordem doce, para irmos descansar quando a televisão nos mantinha acordados. Era o seu jeito de nos dizer que o dia tinha terminado, que o mundo podia esperar e que o importante era estarmos juntos.
A Kikinha ensinou-nos o que é a reciprocidade pura. Aprendi que o amor não se exige, cultiva-se. Os gatos, na sua natureza, ensinam-nos que o respeito pelo espaço do outro é a base de qualquer relação verdadeira. E quando lhes damos o nosso amor sem reservas, eles devolvem-no em presenças, em ronrons que curam o stress e em olhares que parecem ler-nos a alma.
Hoje, sinto o silêncio que ela deixou. Mas, ao olhar para trás, sinto-me grata. A Kikinha ensinou-me que, num mundo onde somos forçados a ser produtivos, a correr e a competir, o maior ato de rebeldia — e de sabedoria — é saber parar, saber estar presente e saber cuidar de quem amamos.
Obrigada, nossa pequena grande mestre, por teres mandado em nós, por teres sido a nossa sombra e por nos teres ensinado que, por vezes, a melhor forma de viver é simplesmente estar. A viagem continua, mas o lugar ao nosso lado estará sempre guardado para ti.

Licenciada em Gestão de Negócios e Consultora na Garvetur Luxury Porto














