Inteligência Artificial: o bicho-papão – Por Rui Rodrigues

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Fui, durante largo tempo, profundamente relutante perante o avanço da Inteligência Artificial (IA). Não pelo desconhecimento técnico, até porque a minha base académica passou pela informática aplicada, mas pelo receio de que se perdesse, com o seu uso desenfreado, aquilo que é mais singular em cada um de nós. O pensamento criador.

Temia que a palavra se tornasse apenas útil. Que a forma substituísse o conteúdo. E que, nesse processo, fôssemos lentamente abdicando do exercício de simplesmente pensar com originalidade. Contudo, o tempo e a experiência ensinaram-me outra coisa e hoje compreendo que a Inteligência Artificial, como qualquer ferramenta, não é boa nem má. É apenas o reflexo da consciência de quem a utiliza e, que pode ser de igual forma, ameaça ou alavanca. Pode empobrecer ou elevar. Pode restringir ou libertar.

Descobri nela um instrumento que não serve para substituir o acto criativo, mas para o iniciar com maior clareza, para o estruturar com maior rigor, para o expandir com maior rapidez.

A sua eficácia é inegável.

Mas considero que, apenas quando colocada ao serviço de uma intenção nobre.

A Inteligência Artificial, quando bem usada, acelera o humano. Não o anula.

Neste momento, reconheço com alguma facilidade os textos que foram escritos por modelos de IA. Há uma ausência que se nota claramente. Uma falta de densidade, de intenção, de risco. Falta simplesmente, alma.

O que ainda me inquieta não é o seu uso. É a dissimulação. É o produto final que se apresenta como se tivesse sido produzido com trabalho totalmente humano, quando não o foi. É a recusa em assumir que houve apoio. Como se a autoria se tornasse menos digna por ter contado com o auxílio técnico. Na verdade, como se a transparência já não fosse um valor em si mesma.

O verdadeiro perigo não está na máquina. Está na preguiça em pensar. Está no conformismo em aceitar o que nos surge já feito. Está na tentação em abdicar da autoria. E, acima de tudo, está na falta de ética que mascara, disfarça e que apresenta como genuíno o que não o é.

Precisamos, urgentemente, de ética na criação. Uma ética que não tema usar ferramentas, mas que nunca abdique da responsabilidade de pensar, de sentir, de filtrar e de transformar. Uma ética que reconheça que a inteligência humana nunca se poderá posicionar em competição com a artificial, mas em saber integrá-la com verdade, critério e sentido.

A Inteligência Artificial não veio para nos silenciar. Veio para nos desafiar.

Para testar o grau de maturidade com que queremos estar no mundo. Para provar se estamos preparados para integrar a inovação sem perder o que faz de nós humanos.

Se há um bicho-papão neste processo, ele não está fora de nós. Está dentro.

Está na nossa relação com a verdade. Com a responsabilidade.

O futuro não se fará sem máquinas. O presente já não se faz sem máquinas.

Mas nunca poderá dispensar a consciência de quem as usa.

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