Nesta sessão, o Professor Carlos Fiolhais conduziu-nos numa exploração profunda sobre o papel dos cientistas portugueses durante os séculos XV e XVI. Estas eras de ouro, marcadas por descobertas significativas e desafios culturais, mostrou como a ciência em Portugal foi simultaneamente enriquecida por colaborações globais e prejudicada pelas restrições impostas pela intolerância religiosa. Este artigo mergulha nas reflexões e temas abordados durante a sessão, incluindo as contribuições dos cientistas judeus, o impacto da Revolução Científica e o papel da astronomia no desenvolvimento do conhecimento.
Contributos judaicos para a ciência em Portugal
Carlos Fiolhais começou por destacar os contributos notáveis de três cientistas portugueses que partilhavam uma ascendência judaica: Pedro Nunes, Garcia da Orta e Amato Lusitano. Durante o Renascimento, estes homens exemplificaram como a ciência pode florescer mesmo em condições adversas:
Pedro Nunes, um dos maiores matemáticos e cosmógrafos da sua época, foi pioneiro na navegação com a criação da linha de rumo, um conceito que revolucionou a capacidade de orientar embarcações em mar aberto. O professor explicou como as suas ideias influenciaram a ciência global, especialmente no desenvolvimento da cartografia. “Pedro Nunes mostrou que a ciência não tem fronteiras. As suas contribuições atravessaram oceanos, tanto metaforicamente como mesmo literalmente”, afirmou;
Garcia de Orta, por sua vez, destacou-se como médico e botânico, sobretudo através da publicação dos seus Colóquios dos Simples e Drogas da Índia. Esta obra reuniu informações detalhadas sobre as propriedades medicinais de plantas tropicais e influenciou a medicina europeia durante décadas. Segundo Carlos Fiolhais, a capacidade de Garcia da Orta em aprender com outras culturas ilustra a importância do intercâmbio de saberes: “Ele não trouxe apenas o conhecimento da Índia para Portugal, ele criou uma ponte entre dois mundos”;
Já Amato Lusitano, médico e anatomista de renome internacional, realizou descobertas fundamentais no campo da circulação sanguínea. No entanto, como observou o palestrante, Amato foi forçado a viver no estrangeiro devido à perseguição religiosa. “Portugal perdeu um génio para o exílio. Amato Lusitano teve de procurar no exterior o espaço que o seu país de origem não lhe ofereceu”, lamentou.
A intolerância religiosa, que culminou com a implementação do Santo Ofício, foi um tema recorrente na discussão. Carlos Fiolhais sublinhou que muitos cientistas judeus tiveram de esconder a sua identidade ou emigrar para poderem continuar a trabalhar. “Esta é uma lição histórica importante: o conhecimento e a criatividade humana só prosperam em ambientes de liberdade”, frisou.
O impacto da Revolução Científica
Avançando no tempo, o professor explorou a Revolução Científica dos séculos XVI e XVII e as suas repercussões em Portugal. Destacou os contributos de cientistas europeus como Galileu Galilei, Johannes Kepler e Isaac Newton, cuja obra estabeleceu os alicerces da ciência moderna.
Um ponto central foi a adoção do calendário gregoriano por Portugal em 1582, que segundo o físico, demonstrou o compromisso do país com os avanços astronómicos da época. Este novo sistema, desenvolvido sob a liderança do Papa Gregório XIII e de cientistas como Cristóvão Clávio, corrigiu discrepâncias no cálculo do tempo e foi um marco na história da astronomia. “Portugal foi um dos primeiros países a implementar o novo sistema, um testemunho da sua participação ativa na ciência global”, afirmou.

O cientista destacou também a contribuição de portugueses para o avanço da astronomia, dando o exemplo, de como as observações de eclipses ajudaram a refinar tabelas astronómicas utilizadas em todo o mundo. Embora Portugal não tenha produzido figuras tão emblemáticas quanto Galileu ou Newton, Carlos Fiolhais apontou que o país desempenhou um papel crucial como mediador e disseminador de conhecimento, devido à sua posição geográfica e estratégica, ao seu Império e por ser a ligação da velha Europa com o resto do mundo: América, África, Índia, China e Japão.
A ciência em tempos de intolerância
Um dos momentos mais marcantes da sessão foi a discussão sobre o impacto da intolerância religiosa e política na ciência portuguesa. O lente sublinhou que o Santo Ofício, instituído em 1536, reprimiu muitas iniciativas científicas ao censurar obras, perseguir pensadores e criar um clima de medo. “A perseguição religiosa não apenas privou o país de grandes mentes, como também retardou o progresso científico por gerações”, comentou.
Mencionou casos emblemáticos de censura e repressão, mas também abordou exemplos de resiliência. Citou os jesuítas, que apesar de terem sido expulsos em 1759, deixaram um legado significativo na educação científica. “Os colégios jesuítas foram pioneiros na introdução de disciplinas científicas no currículo, plantando sementes que germinariam no futuro”, afirmou.
Outro tema abordado foi a modernização da Universidade de Coimbra durante a reforma pombalina, em 1772. Carlos Fiolhais explicou como esta reforma representou um esforço para alinhar Portugal com as correntes científicas europeias, através da criação de laboratórios e da introdução de disciplinas como física e química. No entanto, apontou também as limitações deste processo, especialmente no contexto de uma sociedade que ainda enfrentava algum obscurantismo.

Ao encerrar a sessão, Carlos Fiolhais deixou uma mensagem poderosa sobre a importância da liberdade e do intercâmbio cultural para o progresso científico. “Portugal, com a sua posição geográfica e histórica, teve o privilégio de estar na encruzilhada de várias culturas. No entanto, este privilégio só pode ser plenamente aproveitado num ambiente de abertura e tolerância”, concluiu.
Com o entusiasmo habitual do público, a segunda sessão do curso reforçou a relevância de revisitar o passado para compreender os desafios e oportunidades do presente.
As próximas sessões prometem continuar a desvendar as camadas da rica história científica de Portugal, que Carlos Fiolhais tão brilhantemente tem sabido trazer à luz.
OC/RPC
Nota de edição: Este artigo foi enriquecido, integrando algumas sugestões gentilmente cedidas pelo Professor Carlos Fiolhais.

Editor Adjunto, Eng. Eletrotécnico e Aluno da Licenciatura em Gestão do Património Cultural







