Fé! Deus tem um plano… Mas a Câmara de Loures tem um subsídio – Por Amadeu Ricardo

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Nos últimos anos, a Hillsong Portugal ( Igreja Evangélica Pentacostal), tem-se afirmado como uma presença crescente no panorama evangélico nacional, com uma linguagem apelativa, estética moderna e uma abordagem emocional que atrai sobretudo jovens adultos urbanos. No entanto, por detrás deste culto apelativo e do slogan “Bem-vindo a Casa”, é muito importa olhar com uma atenção crítica para aquilo que representa a marca Hillsong — não apenas localmente, mas na sua expressão internacional.

A Hillsong não é apenas uma igreja: é uma instituição globalizada, nascida em Sydney, Austrália, nos anos 80, e transformada numa franquia (franchising) espiritual com uma presença em mais de 30 países. A sua influência na música gospel contemporânea é inegável — canções como Oceans (Where Feet May Fail) tornaram-se hinos planetários — mas o seu crescimento também tem sido marcado por escândalos, abuso de poder, controlo organizacional e uma teologia frequentemente superficial.

Entre o Palco e a Palavra: Forma sem Substância

A Hillsong Portugal replica fielmente a fórmula internacional: uma igreja que se comporta como uma start-up, com uma estratégia de marketing polida, concertos que substituem cultos tradicionais e uma narrativa motivacional que evita temas difíceis. A fé, aqui, é frequentemente reduzida a slogans: “Deus tem um plano para ti”, “És amado”, “Este é o teu tempo”. Pouco ou nada se diz e fala sobre injustiça social, pobreza, corrupção ou sofrimento real.

A espiritualidade é estetizada — há luzes, câmaras, redes sociais, merchandising — mas onde está o conteúdo? O culto transforma-se em espectáculo, e o púlpito num palco. A Bíblia é citada, mas raramente ensinada. Em vez de encorajar o pensamento crítico,estes espaços promovem uma fé emocional, individualista e consumista.

Escândalos na Base: A Herança Conturbada da Hillsong Global

Não se pode analisar a Hillsong Portugal sem nos referirmos à herança controversa da organização-mãe. Em 2022, Brian Houston, o fundador da Hillsong Church, demitiu-se após acusações de má conduta sexual e de encobrimento dos abusos cometidos pelo seu pai, Frank Houston, um pastor pentecostal que abusou de menores nas décadas de 1970 e 1980. Brian foi acusado de não ter reportado os crimes às autoridades, algo que acabou por ser julgado em tribunal.

Outro caso notório foi o de Carl Lentz, pastor da Hillsong New York e figura mediática que chegou a baptizar Justin Bieber. Lentz foi afastado em 2020 após admitir uma relação extraconjugal — o que, por si só, não justificaria uma crise institucional. No entanto, investigações subsequentes revelaram uma cultura de liderança tóxica, culto à personalidade, encobrimentos e administração opaca dos fundos da igreja.

O documentário da Discovery+ “Hillsong: A Megachurch Exposed” veio confirmar aquilo que muitos já suspeitavam: assédio sexual, manipulação psicológica, homofobia institucional e exploração emocional de membros e voluntários. Ex-funcionários relataram pressões constantes por desempenho, exigências abusivas de trabalho não remunerado e punições veladas para quem ousava questionar a liderança.

E Portugal?

Em Portugal, a Hillsong opera desde os meados da década passada, com sedes em Lisboa e no Porto. Até ao momento, não existem denúncias públicas de má conduta grave — mas isso não isenta a organização de escrutínio. A ausência de escândalos não é sinónimo de transparência.

Vamos Perguntar:

Qual é o impacto social real da Hillsong Portugal nas comunidades mais vulneráveis?

Que projectos concretos desenvolve fora das suas próprias quatro paredes?

Existe prestação pública de contas sobre os donativos recebidos?

Há espaço para diversidade teológica ou democracia interna?

A resposta é quase sempre o silêncio. Tudo é envolto em linguagem genérica sobre “levar esperança” e “servir a cidade”, mas a concretização desses objectivos no terreno é, no mínimo, questionável.

Mais obsceno ainda foi o caso recente da Câmara Municipal de Loures, que atribuiu um donativo público de 150 mil euros à Hillsong Portugal, com o argumento de apoiar obras de reabilitação no espaço que a igreja ocupa no concelho.

Num país onde as instituições de solidariedade verdadeiramente enraizadas na comunidade sobrevivem com orçamentos mínimos — como lares, associações de apoio à toxicodependência ou redes de ajuda alimentar — é escandaloso que uma autarquia canalize verbas públicas para uma igreja com ligações externas, sem historial de intervenção social consistente, e associada a escândalos globais. Este episódio não só revela uma promiscuidade entre poder político e interesses religiosos, como expõe a falta de critérios e de ética na gestão dos dinheiros públicos. Financiar operações de fachada com fundos do erário público é mais do que um erro: é um insulto aos que vivem com necessidades reais.

A Fé Não Se Compra

O problema aqui não está na música moderna, nem na linguagem acessível. O problema está na lógica empresarial aplicada à espiritualidade, em que o foco passa a ser a expansão da marca, e não o crescimento espiritual. A missão evangelizadora dá lugar ao marketing religioso. O compromisso social é substituído por performance emocional.

Enquanto centenas de comunidades locais enfrentam dificuldades reais para apoiar populações em risco, a Hillsong exibe palcos, ecrãs LED e estratégias de retenção de público dignas de uma conferência tecnológica. Mas onde estão os frutos? Onde está o serviço real à sociedade portuguesa?

Entre o Carisma e o Compromisso

Não se trata de fazer um julgamento gratuito. Há, certamente, pessoas bem-intencionadas dentro da Hillsong Portugal, e indivíduos que encontram naquele espaço alguma forma de consolo. Mas a crítica estrutural mantém-se: a igreja precisa de prestar contas, abandonar o modelo de consumo espiritual e demonstrar um compromisso autêntico com a transformação social.

Uma igreja que não serve os pobres, que não se posiciona contra a injustiça, e que não pratica uma fé que vai além do palco, está a falhar a missão que proclama.

E, em última instância, deve ser escrutinada — como qualquer outra entidade que beneficia da confiança pública e, agora, também dos cofres do Estado.


Fontes:

1. The Guardian – “Hillsong founder Brian Houston resigns after complaints of inappropriate conduct”


2. Vanity Fair – “Carl Lentz, Justin Bieber’s Former Pastor, Admits Infidelity”


3. Discovery+ – “Hillsong: A Megachurch Exposed” (2022)


4. Christianity Today – “A Deep Dive Into Hillsong’s Global Scandals”


5. Diário de Notícias – “Loures dá 150 mil euros à Hillsong Portugal para reabilitar espaço religioso”

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