Era uma mulher de silêncios

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Judite morava num segundo andar de um prédio antigo na Ribeira. Era da sua janela de guilhotina que olhava as águas do Douro que espelhavam o céu inconstante das manhãs de outono. Gostava de seguir o vaivém dos barcos, sempre apinhados de turistas, mesmo naqueles dias em que o sol se fazia rogado e as nuvens se amontoavam.

Quando nova, descia e subia agilmente e feliz, as ruas estreitas da cidade do Porto. Procurava nelas, o silêncio que lhe era vedado numa casa com dez irmãos; um tempo duro que a levou a trabalhar cedo fora de casa, para ajudar os pais.

Às seis da manhã, numa pontualidade britânica, fazia-se à vida, como gostava de dizer às poucas pessoas que por ela passavam. Calcorreava as vielas escuras que se escondem em labirinto pelo casario em cascata. Conhecia todos os becos como as palmas das suas mãos.

Era uma mulher de bons modos, discreta e respeitada nos locais onde fazia limpezas. Não raramente era agraciada com pequenos presentes, desde uma simples flor a um casaquinho de malha ou um lenço, que lhe agasalhavam o corpo nos dias frios.

Vivia num silêncio apaziguado.

No verão saboreava os primeiros raios de sol que lhe beijavam o rosto, mas eram as manhãs de inverno que lhe traziam à memória e ao coração aquele amor de juventude que a aquecia por dentro: o amor por Camilo, um tipógrafo que fora para França fugindo à guerra colonial e que numa noite, sob um céu de prata, lhe prometera voltar para os seus braços.

Esse dia que nunca sucedera, ficou ali no coração granítico da Ribeira.

E Judite deixou-se envelhecer naquela janela virada para um futuro que cristalizara. Bordava silêncios em pequenos lenços de linho que oferecia às noivas da sua rua estreita.

O tempo foi passando devagar, mas nunca lhe morrera a esperança de um dia, um sorriso familiar e antigo lhe batesse à porta.

Imaginava um dia azul e sem ruído, vê-lo descer a rua e olhar a sua janela. Voltaria com a saudade nos olhos e réstias de sonhos nas mãos…


Ela acolhê-lo-ia como quem acolhe a primavera depois de uma longa invernia.

Fechou os olhos e sentiu uma brisa suave pousar-lhe no rosto, um calor reconfortante invadiu-a.

Era uma mulher de silêncios. Partilhava-os com o rio que lhe sussurrava histórias do seu Camilo. Deixava que o seu olhar pernoitasse no último barco rabelo que passava.

Quando o crepúsculo se aproxima e cobre o céu de um laranja vivo, ainda há quem olhe aquela janela e vislumbre dois rostos, lado a lado, a repartirem aquele parapeito na Ribeira: olham a calmaria do Douro como se o tempo tivesse embrandecido só para eles.

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