Go Graal Blues Band – Os seguranças não estavam lá…

Mais artigos

Por volta dos meus dezoito anos (1978), numa das minhas idas ao bar de música ao vivo Zodíaco, perto do Jardim da Estrela (Campo de Ourique), Lisboa, acabei por ser convidado a tocar dois ou três blues com a Go Graal Blues Band.

Passados alguns dias recebi o telefonema que ía mudar a minha vida, um convite para integrar a banda! Duas guitarras, duas harmónicas, mas dois baixos, como?…

Tanto eu como o baixista fundador o Artur Paes, tocávamos guitarra, assim nos configurámos na banda, quando um tocava baixo, o outro tocava guitarra e vice-versa.

Lembro-me da primeira vez que me apresentei ao vivo, no palco do Pavilhão Dramático em Cascais e vi aquelas milhares de pessoas em enleio e encantamento… Mas rapidamente perdi o apavoramento e a ojeriza do público.

Planificámos e organizámos o nosso grande concerto, no Coliseu dos Recreios (Lisboa).

Como não havia patrocinador, estabelecemos um acordo com os fornecedores que seriam pagos com a receita, logo após o concerto.

Os nossos “padrinhos” Jaime Fernandes e João David Nunes, tinham conseguido uma gravação da banda, nos estúdios da Radiodifusão Portuguesa, junto à Assembleia da República e passaram incessantemente a nossa música nos seus programas de rádio.

Como a banda tinha um nome em inglês e as canções tinham letras inglesas, todos pensavam que era uma banda americana.

Fomos afortunados pelos cartazes, pois em papel pardo e com uma belíssima foto tirada em Monsanto, com roupas do guarda-fatos do Parque Mayer e respetivos chapéus a condizer, ninguém suspeitaria da nossa nacionalidade…

A nossa promoção foi de tal forma bem sistematizada que eu e alguns colegas da banda, passeámos nos dias anteriores ao concerto, em formato de “sandwich-men”, tábua à frente, outra atrás com os cartazes colados, na zona do Rossio, e os transeuntes não tiveram como não estarem informados do nosso concerto (ainda não havia a net nem plataformas para divulgação).

No dia do concerto, o Paulo Gonzo atrasou-se, e nós já no ensaio de som, as portas fechadas e mesmo ele dizendo que fazia parte da banda, não o quiseram deixar entrar…

O coliseu (quase) cheio, nós a esfregarmos as mãos de aprazimento, pois a receita além de cobrir as despesas, ainda daria uma boa quantia para cada elemento da banda e na hora marcada subimos ao palco.

Depois da terceira ou quarta música, o vocalista da banda, o José Carlos Cordeiro – o Paulo Gonzo na altura ainda não cantava, apenas tocava harmónica – disse as primeiras palavras da noite em português:

Olá pessoal!

Aí caiu o “Carmo e a Trindade” e nós sem seguranças…

Invasão de palco incontrolável, o Artur e mais alguns músicos a pedirem delicadamente para descerem do palco, mas no meio da euforia foi muito difícil e “The Show Must Go On”, lá continuámos com uma série de bailarinos inusitados no palco.

Já não recordo como terminámos o concerto, mas terminámos!

Nas contas finais, fomos surpreendidos por uma conta que de todo, não contávamos, a conta das cadeiras partidas que quase chegava a uma centena de contos.

Lembro-me que depois de pagos todos os fornecedores, obtivemos o valor final de cento e tal escudos que ainda deu para um bom lanche!

Em 1979, gravámos o primeiro disco vinil nos estúdios da Arnaldo Trindade, com o técnico Moreno Pinto e a capa contou com o design do nosso baterista, Raul dos Anjos.

Curiosamente na altura em que se brincava com a estereofonia, colocámos no interior do disco um diagrama sequencial da mistura em “stereo” e assim sabíamos, quem tocava do lado direito, esquerdo, ou ao centro. Uma inovação na época!

Este disco com nove faixas, tem a primeira aparição de Paulo Gonzo como cantor na faixa “ For ma Babe – Gonzo pleasure”, além do baterista e do harmonicista que já referi, os Go Graal tinham a participação de: José Carlos Cordeiro na voz, João Allain e João Esteves nas guitarras, Augusto Mayer na harmónica e este vosso amigo no baixo (a minha primeira gravação em estúdio). E conta ainda, com o meu primeiro solo de baixo gravado, no tema “Good Morning Blues”, um blues mais ao estilo jazzístico.

Na altura a Go Graal, os Tantra, os Beatnicks, os Roxigénio e os Psico, eram bandas de referência no panorama nacional e muitos dos concertos, foram realizados nas festas de finalistas.

Lembro que uma das nossas melhores atuações, aquela que teve mais “encores” (cinco ou seis…), foi em Portalegre.

Atuámos nas primeiras partes dos Soft Machine, uma banda britânica de rock psicadélico, uma impulsionadora do movimento musical Canterbury, formada em 1966. E do guitarrista Jan Akkerman, do grupo de rock progressivo holandês Focus.

Abandonei a banda quando musicalmente o caminho musical transmudou-se para uma linha musical mais perto do rock, já aí desvelava o meu gosto pelos blues.

Em 1984, no “Cascais Jazz”, atuei com Rui Veloso, e os excelentes músicos: Nana Sousa Dias, Luís Moreira, Manuel Paulo e Paleka. O Rui na voz, harmónica e guitarra. O músico americano, Fenton Robinson, que encerrou a noite, disse-nos que se soubesse que a banda da primeira parte era tão boa, teria ele, iniciado a noite.

Quem diria, que vinte e um anos depois, iria criar e programar, um dos primeiros festivais de blues em Portugal – o “Gaia Blues” (2000)…

https://www.youtube.com/watch?v=kwOtlmIFKqk

image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -Advertisement

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img