Entregar testes e atribuir classificações pode parecer um gesto banal no dia-a-dia de uma escola. Mas, para muitas crianças, esse momento carrega um peso enorme: o medo de desapontar, a pressão das expectativas, próprias e dos adultos, e, muitas vezes, as palavras que ficam gravadas no coração e na cabeça, mesmo quando nós, adultos, pensamos estar a brincar ou a motivar.
Ao longo de anos a ensinar no 1.º ciclo, testemunhei inúmeras situações em que o resultado de um teste desencadeou lágrimas, ansiedade ou medo. (Mas também alegrias!) Só que, por vezes, estas reações de choro não têm nada a ver com a dificuldade dos testes em si, mas com aquilo que as crianças ouviram ou antecipam como consequência daquilo que lhes parece um “insucesso”.
Recordo-me de um episódio que, passados anos, ainda me faz rir:
Tive um menino, meu aluno, que hoje, orgulhosamente, ainda é meu amigo, que tirava sempre notas perfeitas – 100% em quase tudo. Era esforçado, curioso, preguiçoso, muito rápido de raciocínio, mas, acima de tudo, seguro daquilo que sabia. E por isso pouco estudava. Certa vez, num teste que julgo ter sido de Português, não conseguiu atingir a sua perfeição e teve 90 e muito por cento.
Quando lhe entreguei o teste, ele virou e revirou as folhas e, de repente, começou a chorar. Parei, olhei para ele e percebi que estava dececionado. Falei com ele, tentei consolá-lo, expliquei-lhe que aquela era uma excelente nota, que todos cometemos erros e que isso não diminuía em nada a sua capacidade. Insisti, mas as lágrimas continuavam, e ele parecia cada vez mais angustiado. Eu própria estava a começar a ficar preocupada.
Depois de insistir para que me explicasse o motivo daquele choro, ele finalmente desabafou:
– “Tu não estás a perceber…” – “Explica-me! Diz-me! O que foi?” – “A minha mãe…” – e chorava – “…disse que se eu não tirasse 100%, me furava os olhos com um garfo!”
Não aguentei!!! (Sim, os professores também falham…) E dei uma gargalhada, o que o deixou ainda mais irritado e angustiado. Naquele momento, senti um misto de riso e ternura. Ele estava furioso, mas também completamente angustiado, e eu percebi. Precisava de amparo e compreensão. Acolhi-o, dei –lhe um abraço, limpei-lhe as
lágrimas, falei com calma e expliquei-lhe que, por vezes, os adultos não percebem o peso das palavras que dizem e que isso podia fazê-lo sentir-se mal, mas que, por vezes, não era essa a intenção. O que foi o caso. Mas a Mãe não o via estudar e no limite…. Disse o que disse! Lentamente, ele lá se acalmou, ainda que choroso, mas imagino que temesse o momento em que teria de dizer a nota à Mãe.
Bem… No dia a seguir, quando entrou na sala, brinquei com ele e perguntei se a Mãe não lhe furou os olhos e ele, timidamente, sorriu. Não, a Mãe não lhe fez nada e, provavelmente, já nem se lembra desta história.
Hoje, já crescido, ainda nos rimos juntos desta situação, principalmente quando sei que ele sabe perfeitamente das suas capacidades e só precisa de aplicar o seu talento. Recordo muitas vezes este episódio e sorrio e sinto saudades dele pequenino…
Passado tanto tempo e de cada vez que tenho uma situação semelhante com algum aluno que chora por causa de uma nota ou de algo que um Pai ou Mãe disse, conto esta história. Explico-lhes que os Pais querem o melhor para eles, os professores também, mas, por vezes, esquecem-se da pressão que estão a exercer… (porque os Pais também falham).
É precisamente porque todos falhamos às vezes, que nos esquecemos que errar faz parte da aprendizagem e que errar também é crescer. E que as falhas nos ajudam a evoluir. Os adultos dizem estas coisas porque conhecem o potencial das crianças e querem o melhor para elas, mesmo quando as palavras parecem exageradas ou estranhas.
Se eu pudesse, gostava de explicar aos Pais que o valor de uma criança não se mede por números ou percentagens. E que a escola se faz no dia-a-dia e que devemos valorizar o que aprendem e não os números que atingem…. Na realidade, todos nós vivemos numa constante aprendizagem, e as aprendizagens têm mais impacto do que qualquer nota.
No meio desta história (que escrevo a sorrir) tenho uma certeza: não sei se ele se lembra da minha gargalhada, mas tenho a certeza de que se lembra do meu abraço e do meu apoio, e de como aprendeu que, quando queremos muito uma coisa, não devemos desistir; que se não for agora, será da próxima vez. Persistência ele tem… Em quatro anos de convivência diária, julgo ter conseguido canalizar a sua teimosia e o mau feitio, para que aprendesse a lutar pelo que queria e a não desistir e sobretudo, a acreditar em si. E é isso que tento fazer todos os dias – ajudar os meus pequenos a perceber que se quiserem, eles conseguem tudo!
E sim, tenho muito orgulho nele e ainda hoje, a rir, digo-lhe: “Esforça-te, senão a tua Mãe ainda te fura os olhinhos!”
Entre notas perfeitas e lágrimas reais
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Professora do 1º Ciclo do Ensino Básico







