Quando pedimos para falar com o médico de família, a resposta vem no mínimo passado duas a três semanas – salvo raras exceções. A resposta chega por SMS, com a mesma calma mecânica de quem lê estatística: “aguarde pela marcação”.
A fila de espera não é apenas uma linha num gráfico. É o retrato de uma sociedade que presume ter assumido os seus cuidados com a serenidade de quem conhece o próprio direito. No entanto, o acesso aos cuidados primários, pilar do SNS, parece ter entrado num modo de espera alargado: meses de espera para uma primeira consulta, semanas para uma simples renovação de receita, e, para as situações mais delicadas, uma escalada que leva o utente a procurar emergências onde não deveria e a incurável sensação de “já sei como isto começa, mas não sei como termina”.
Não há dia em que o SNS esteja de boa saúde; as vozes que chegam aos nossos ouvidos – pacientes, profissionais de saúde, familiares não descrevam um mesmo enredo: a contenção de horários, a alocação de recursos que não acompanha a procura, e a frustração de quem tenta explicar que a saúde não admite contornos de planilha. Até o médico de família, esse guardião de uma porta que deveria abrir com humanidade, vê-se esmagado por uma engrenagem que não para.
Assistimos muitas vezes à infindável questão: “Há menos médicos?”, pergunta alguém da sala de espera. A resposta, por vezes, chega como uma mentira doce: “Estamos a reforçar a equipa”. E o reforço, quando chega, parece uma cura milagrosa que tarda, com a pressa de quem tem mil outras portas a abrir.
Entre as paredes que guardam a confidência de cada caso, o tempo parece dobrar-se. O tempo da doença que precisa de avaliação, o tempo da burocracia que exige sinais, papéis e formulários, quadros e listas, o tempo da gestão que tenta justificar-se com números que não conversam com a pele do quotidiano. O utente que pede uma consulta para uma dor que persiste não quer números; quer cuidado. Quer uma explicação que não seja “volte depois” com a certeza de que voltará mais tarde para, tal como antes, não encontrar o que precisa.
Há quem pense que a solução está em mais tecnologia, em marcações online, em telessaúde. Não discuto o valor dessas ferramentas; reconheço, porém, que esta tecnologia sem pessoas não cura. O que cura é ter médicos suficientes para atender o que já não pode esperar, enfermeiros que não caminhem com o peso de um turno extra nas costas, gestões que não confundam prontuários com promessas. A telemedicina até pode ser um complemento, mas nunca ou substituto. O resto é retórica que ilude quem precisa de uma resposta concreta hoje.
Enquanto o país debate números, as pessoas continuam a sentir na pele o preço de cada atraso: o agravamento de uma condição que, no tempo correto, seria tratável; o trabalhador que perde dias de salário para uma consulta que ficou para amanhã ou na pior das hipóteses nem venha. Apesar de tudo ainda há unidades de saúde que criaram filas mais humanas com vigilância de tempo real, médicos de família que estendem horários numa tentativa de chegar a mais pacientes. Aqui deixo um rasgado elogio à unidade à qual pertenço.
Talvez ainda haja uma maré alta para a saúde…
Isto não pode ser apenas uma luta individual. É uma história coletiva sobre o que significa viver numa sociedade que, ao mesmo tempo, promete universalidade e impõe fronteiras invisíveis entre quem pode pagar e quem depende apenas do Estado.
E chegados aqui, num tempo de controversas ideias, talvez haja uma lição a tirar desta situação, é que o acesso à saúde primária não pode ser algo que depende de sorte. Não pode ser uma aposta diária em que o utente almeje para encontrar uma janela de atendimento que, por acaso, coincide com o seu momento de necessidade.
A saúde é o maior bem e na falta dela, cada um de nós tem o direito de ser tratado com dignidade e equidade.
Professora e Escritora







