A saudade e a ausência não precisam da morte para doer – Por Rosa Fonseca

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Há uma saudade estranha que não se explica facilmente. Não é a saudade de quem partiu para longe, nem a saudade de quem a morte levou. É uma saudade diferente – a de alguém que continua aqui, ao meu lado, mas já não se encontra inteiro. De alguém que se vai afastando para um lugar onde eu não posso entrar.
Bem sei que é uma despedida lenta, feita de pequenos desaparecimentos, de gestos esquecidos, de histórias apagadas.

Olho para ti e vejo o corpo a flutuar naquele sofá alaranjado que te fazia lembrar as nuances de outono – como gostavas do outono! Recordo os nossos passeios pelo jardim da cidade, nas tardes douradas depois dos pequenos virem da escola. O mesmo olhar, o mesmo sorriso que tantas vezes me acolheu. Mas dentro de ti algo se perdeu, como se as tuas memórias fossem fios de areia a escapar-se entre os dedos.

Reconheces-me às vezes, outras não. E nesses instantes em que o teu olhar passa por mim sem me ver, como se eu fosse apenas um rosto desconhecido, sinto a dor de uma ausência que não se pode denominar.

O mais difícil é compreender que ainda vives e, ao mesmo tempo, vives distante, fora de ti. A tua voz já não guarda as histórias que me contavas, as tuas mãos já não procuram o que antes conheciam tão bem. Mas, continuo a segurar a tua mão, como quem tenta prender um fio de luz que insiste em escapar. Continuo a falar-te, mesmo quando as palavras já não fazem sentido.
O amor mantém-se. Talvez seja isso que ainda nos une, mesmo quando a memória já não sabe o meu nome.
É como se habitasses um lugar secreto, onde eu não consigo entrar, e ficasse do lado de fora, a chamar por ti neste silêncio que me habita.

E, no entanto, o amor continua. Aprendi que o amor não depende apenas da memória. Ele está na paciência dos dias, no gesto de te dar a mão mesmo quando já não sabes quem eu sou. Está em cada vez que sorrio por ti, mesmo quando tu não sabes sorrir de volta.
Viver esta ausência é aceitar que a saudade não precisa da morte para doer.

É uma despedida lenta, quase impercetível, que me obriga a reencontrar-te todos os dias, como se fosse a primeira vez. É aprender a amar-te de novo, não pelo que recordamos juntos, mas pelo que ainda és, aqui e agora, mesmo que o tempo e a mente insistam em apagar os traços de quem foste.
Hoje, dei contigo a olhar a cidade e quase vi, no teu olhar, o brilho das nossas tardes de outono.

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