Durante muito tempo, a imaginação foi tratada como um problema. Algo a domar, a controlar, quase uma ameaça à razão.
Em A Louca da Casa, Rosa Montero desafia diretamente essa ideia ao recuperar a expressão de Santa Teresa de Ávila, que chamava “louca da casa” à imaginação, e transformá-la numa poderosa defesa da criatividade humana.
Ao ler o livro, torna-se difícil continuar a ver a imaginação como simples fantasia ou fuga da realidade. Pelo contrário, Rosa Montero mostra que imaginar é uma forma de sobreviver.
É através da imaginação que lidamos com a dor, que damos sentido às perdas e que construímos uma narrativa coerente sobre quem somos. Mesmo quando acreditamos estar a recordar factos objetivos, estamos, na verdade, a reinventá-los.

O que mais impressiona em A Louca da Casa é a honestidade com que a autora se expõe. Rosa Montero fala dos seus medos, das suas fragilidades e do processo de escrita sem recorrer a idealizações. Ao fazê-lo, aproxima-se do leitor e desmonta o mito do escritor como génio distante e infalível. A literatura surge, assim, não como um território reservado a eleitos, mas como uma necessidade humana básica.
A autora lembra-nos ainda que a linha entre realidade e ficção é mais frágil do que gostamos de admitir.
Somos feitos de histórias: as que contamos aos outros e, sobretudo, as que contamos a nós próprios. Negar a imaginação seria negar uma parte essencial da nossa identidade.
Num mundo cada vez mais obcecado com dados, produtividade e resultados imediatos, A Louca da Casa surge como um lembrete oportuno: imaginar não é perder tempo. É compreender melhor a vida.
Talvez a imaginação seja, de facto, um pouco louca. Mas é precisamente essa loucura que nos mantém humanos.
OC/SR
Criadora de Conteúdos e Experiências Digitais em Literatura e Lifestyle







