A Ingratidão de um País

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Há textos que não são sobre futebol. Este é um deles.

Nas últimas semanas voltei a assistir a algo que, confesso, me deixa profundamente desconfortável: a facilidade com que muitos portugueses atacam Cristiano Ronaldo. Não me refiro à crítica. A crítica é legítima. Sempre foi. Faz parte do desporto. Faz parte da vida. Refiro-me à ingratidão. Porque existe uma enorme diferença entre analisar um jogador e esquecer aquilo que ele representou para um país inteiro.

Cristiano Ronaldo tem hoje 41 anos. Não é o mesmo atleta que deslumbrou o mundo. Não é o mesmo jovem que saiu da Madeira para conquistar Inglaterra, Espanha, Itália e o futebol mundial. O tempo passou. Como passa por todos nós. Mas aquilo que me impressiona não é a idade de Ronaldo. É a memória curta de muitos portugueses. Porque parece que esquecemos quem éramos antes dele.

Antes de Cristiano Ronaldo, Portugal tinha talento. Depois de Cristiano Ronaldo, Portugal passou a acreditar. Antes dele, uma presença numa meia-final era celebrada como um feito histórico. Depois dele, passámos a exigir títulos. Antes dele, éramos respeitados. Depois dele, passámos a ser admirados. Foi ele quem elevou a fasquia. Foi ele quem transformou a ambição de um país. Foi ele quem levou o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo. Milhões de pessoas conheceram o nome do nosso país através de um rapaz português que decidiu que os seus sonhos seriam maiores do que as suas circunstâncias. Um rapaz que respondeu da única forma que sabe responder: trabalhando. Trabalhando mais. Treinando mais. Exigindo mais. Sonhando mais. Durante mais de duas décadas carregou uma responsabilidade que nenhum português da sua geração carregou. Levou o nome de Portugal para todos os continentes. Fez crianças portuguesas acreditarem. Fez emigrantes portugueses sentirem orgulho. Fez o mundo olhar para a nossa bandeira. E talvez por isso custe tanto assistir à forma como alguns o tratam hoje.

Porque quando Portugal joga mal, o problema parece ser sempre Ronaldo. Quando Portugal empata, o culpado parece ser sempre Ronaldo. Quando algo corre menos bem, a conversa volta sempre ao mesmo nome. Cristiano Ronaldo. Sempre Cristiano Ronaldo. Mas permitam-me uma pergunta. Se temos uma das melhores gerações da nossa história… Se temos um dos meios-campos mais valorizados do mundo… Se temos jogadores nos maiores clubes europeus… Porque continuamos a falar apenas de um homem de 41 anos? Talvez porque seja mais fácil. Talvez porque seja mais cómodo. Talvez porque a crítica venda mais do que a gratidão. Cristiano Ronaldo já não é apenas um futebolista. É um símbolo. Uma referência. Uma expressão moderna daquilo que os portugueses sempre admiraram nos seus heróis. Coragem. Determinação. Resiliência. Capacidade de desafiar o destino. Portugalidade.

Um dia Cristiano Ronaldo deixará definitivamente os relvados. E nesse dia não estaremos apenas a despedir-nos de um jogador. Estaremos a despedir-nos de uma era. Da maior carreira desportiva que Portugal alguma vez conheceu. E nesse momento muitos dos que hoje o criticam dirão com orgulho: ‘Eu vi jogar Cristiano Ronaldo.’ Talvez porque só então percebam aquilo que tinham diante dos olhos. Mas nessa altura já será tarde. Porque a verdadeira grandeza não deve ser reconhecida apenas quando desaparece. Deve ser reconhecida enquanto ainda está presente. As vitórias passam. Os golos passam. Os troféus passam. Os recordes acabam por ser batidos.

Mas a gratidão deveria permanecer. Talvez o problema nunca tenha sido Cristiano Ronaldo. Talvez o problema seja a nossa incapacidade de lidar com a grandeza quando ela nasce demasiado perto de nós. E talvez o maior teste a um povo não seja a forma como celebra os seus heróis. Talvez seja a forma como os trata quando deixam de ser perfeitos.

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