Crónica sem graça

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Juro que tentei sorrir. Garanto-vos que faço um esforço hercúleo para o conseguir, mas os meus lábios teimam em contrair-se num esgar de suplício. Mentalizo-me fortemente, concentro-me na obrigação de esboçar uma alegria, porém, revela-se uma tarefa inútil, difícil, quase impossível. Confesso-vos que não entendo a razão deste bloqueio, tanto mais que achei uma profunda graça ao que acabei de presenciar.

Um sujeito maltratava uma senhora de idade, apenas porque esta lhe dera um encontrão involuntário ao desequilibrar-se na descida de uma escada. O homem exibia uma má-educação soberba, numa autêntica cena de violência digna de um filme de péssima categoria. Eu deveria sorrir perante tanta perfeição representativa; mas não, não fui capaz.

Mais à frente, deparei-me com outra situação teoricamente hilariante, e nada de o esgar se transformar em riso. Na confusão habitual do trânsito, um “xico-esperto” ultrapassou outro condutor de forma perigosa, quase roçando a frente do veículo desafiado. Em seguida, não satisfeito com a proeza heróica de exímio piloto, o homem travou, chamou o outro de aselha e burro, vociferando ainda mais uns adjectivos simpáticos: «És um nabo, pareces uma lesma, andas a dormir!»

Era ou não era cena para me desatar a rir?

Comecei a preocupar-me gravemente. Estaria eu insano, ou o espetáculo do mundo já não era suficientemente cómico? Desisti de me animar com tão belas demonstrações de humanidade e convenci-me de que o perturbado era eu. Não era normal a minha incapacidade de rir a bandeiras despregadas perante atos tão hilariantes e demonstrativos do bom humor e da educação cívica dos intervenientes.

Fiquei-me por ali, sem rir, com cara de poucos amigos por não conseguir achar graça ao que, manifestamente, era “engraçado”. Concluí, finalmente, que devo ser de outro mundo.

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