Todos os anos, quando chega o dia 10 de junho, voltamos a olhar para as bandeiras,
para as cerimónias e para os símbolos que nos recordam quem somos. Celebramos
Portugal, evocamos Camões e lembramos as comunidades portuguesas espalhadas
pelo mundo. E fazemos bem.
Mas talvez haja outra forma de celebrar este dia.
Talvez possamos celebrá-lo através das palavras.
Não apenas das palavras dos discursos oficiais, mas das palavras que habitam os
poemas. Afinal, foi um poeta que deu o nome a esta data. E talvez não exista forma
mais adequada de homenagear uma língua do que escutá-la na sua expressão mais
livre e mais bela.
A língua portuguesa tem um dia próprio no calendário. Ainda assim, é impossível
separar a língua da ideia de Portugal. Ela acompanha-nos desde a infância, molda
o nosso pensamento, guarda as nossas memórias e transporta uma maneira
particular de estar no mundo e de sentir o mundo.
Por vezes falamos da língua como se fosse uma herança recebida intacta dos nossos
antepassados. Mas uma língua não é uma peça de museu. Não permanece imóvel
atrás de uma vitrina. Vive na boca de quem a fala, nas páginas de quem a escreve,
nas canções de quem a canta e até nos silêncios de quem procura as palavras certas.
É uma construção coletiva, feita de encontros e desencontros, de viagens e
regressos, de permanências e transformações.
O português atravessou oceanos e continentes. Encontrou outros povos, outras
culturas e outras formas de olhar a realidade. E, em cada encontro, saiu diferente:
mais amplo, mais rico, mais diverso.
Talvez por isso a poesia seja um dos lugares onde melhor podemos reconhecer
essa riqueza. Nos versos dos autores lusófonos encontramos não apenas uma língua
comum, mas múltiplas maneiras de a habitar. Cada poema revela uma música
diferente, uma paisagem distinta, uma sensibilidade própria.
Neste Dia de Portugal, proponho por isso um gesto simples: abrir um livro de
poesia. Ler Camões, mas também ler aqueles que vieram depois dele. Escutar as
vozes que, de diferentes geografias e experiências, continuam a dar novas formas
à mesma língua.
Porque celebrar Portugal é também celebrar aquilo que nos une para lá das
fronteiras.
E talvez a língua seja a mais duradoura dessas pontes.
Costuma dizer-se que a língua é a casa do ser. Eu gosto de pensar nela como uma
casa com muitas janelas. Uma casa onde cabem diferentes paisagens, diferentes
memórias e diferentes afetos.
Uma casa onde a palavra “coração”, quando perde o “c”, se transforma em “oração”.
Talvez não seja apenas um acaso da língua. Talvez seja um lembrete de que as
palavras mais importantes são aquelas que nos aproximam dos outros.

Advogada / Vogal da Direção de AA Portugal














