A ideia surgiu-me num momento de profunda reflexão económica nacional: estava eu a
abastecer o carro, a assistir em direto ao desaparecimento de 50 euros em
aproximadamente 11 segundos, quando reparo numa jornalista de uma cadeia de
televisão ao lado da bomba.
Microfone na mão, ar preocupado, sobrancelha carregada de indignação profissional,
entrevistava um senhor que segurava a mangueira do combustível como quem segura
o último fio de esperança da classe média portuguesa.
“E o que acha destes aumentos consecutivos dos combustíveis?”
O homem respirou fundo, olhou para o visor da bomba como quem vê o resultado de
uma TAC e respondeu aquilo que já se tornou o hino nacional não oficial:
“Isto assim não pode continuar.”
Mas continua. Continua sempre.
Vivemos tempos extraordinários. Não no sentido bom da palavra, claro. Extraordinários
porque atualmente basta um navio espirrar no Estreito de Ormuz para o gasóleo
aumentar 14 cêntimos antes mesmo do capitão acabar o pequeno-almoço.
O mundo moderno tornou-se uma espécie de reality show económico onde o prémio
final é descobrir quanto mais conseguimos pagar pelas mesmas coisas de sempre. O
pão sobe porque há guerra. A eletricidade sobe porque não há vento. A carne sobe
porque há seca. O peixe sobe porque há mar. O azeite sobe porque as oliveiras estão
stressadas. Tudo sobe. Menos os salários, esses mantêm-se humildes, agarrados às
raízes, fiéis à tradição portuguesa.
E nós aceitamos tudo com uma serenidade admirável. O português é talvez o único ser
humano do planeta capaz de abastecer 20 euros, ver a bomba parar nos 3 litros e ainda
agradecer ao funcionário.
Mas eu tenho uma solução.
A bicicleta.
Não uma bicicleta qualquer. A bicicleta enquanto modelo económico, energético e
civilizacional.
Aliás, eu até acho que o combustível em Portugal ainda está perigosamente barato. O
gasóleo simples devia rondar os 5 euros por litro e o aditivado uns 7,50€. Só assim o
país acordava verdadeiramente para a mobilidade sustentável. Porque reparem: se o
Governo, em vez de baixar o ISP, oferecesse uma bicicleta a cada cidadão, acabavam
se imediatamente as reclamações.
“Está cara a gasolina?”
Pegue na bicicleta.
“Não consegue pagar a eletricidade?”
Pedale.

Shipchandler














