Era ainda de dia quando as filas começaram a formar-se nos Jardins do Palácio de Cristal. Grupos de amigos com sotaque galego, casais mais novos a segurar copos de cerveja ao frio de maio — o ambiente já era de festa muito antes de as portas da Super Bock Arena abrirem às 18h30. A banda espanhola Arde Bogotá estreou-se na noite de 16 de maio, na Super Bock Arena, no Porto, com uma sala completamente esgotada, assinando uma daquelas noites que ficarão gravadas na memória do público local.
A noite não estava prevista para ali. Devido à elevada procura, o concerto no Porto foi transferido do Hard Club para a Super Bock Arena, numa mudança que permitiu que mais fãs pudessem assistir à actuação da banda, uma das mais aclamadas do momento. O espectáculo foi promovido pela Everything Is New, empresa responsável pela promoção de ambas as datas portuguesas da digressão, que tomou a decisão de escalar as salas depois do esgotamento rápido dos bilhetes iniciais — uma aposta que se revelou totalmente acertada: o Pavilhão Rosa Mota encheu-se do chão ao tecto.
Uma invasão (bem-vinda) do lado de lá da fronteira
Quem percorreu a plateia antes do início do espectáculo facilmente percebeu que aquilo era tanto um concerto português como espanhol. Grupos vindos de Vigo, de Pontevedra e de outros pontos da Galiza misturavam-se com portuenses e estudantes universitários que descobriram os Arde Bogotá nas redes sociais. O próprio baterista José Ángel Mercader reconheceu, em entrevista, que há muita gente de Espanha que não consegue bilhetes para os concertos lá e vem até à fronteira, e que faz parte da geografia ibérica criar uma grande digressão incluindo Portugal. O Porto, pela sua proximidade com a Galiza, foi o ponto de encontro natural desse fluxo.
Vinte canções, uma hora e vinte minutos de adrenalina
Pouco passava das 20h00 quando as luzes se apagaram. O rugido do público foi instantâneo. Antonio García, Pepe Esteban, Jota Mercader e Dani Sánchez subiram ao palco sem cerimónias, sem videoclipes introdutórios, sem discursos — apenas guitarras afinadas e a determinação de quem sabe exactamente o que veio fazer.
A noite arrancou com Los Perros e não largou o acelerador durante toda a actuação. A setlist percorreu a discografia da banda de forma quase cirúrgica, equilibrando os temas mais recentes com os clássicos que os trouxeram até aqui:
Los Perros — Instrucciones — Millennial — A lo Oscuro — Qué Vida tan Dura — Antifiesta — Sin Vergüenza — Abajo — Flores de Venganza — Clávame tus Palabras — La Torre Picasso — Asidero — Cowboys de la A3 — Escorpio y Sagitario — Virtud y Castigo — La Salvación — Antiaéreo — Cariño — Exoplaneta
Antiaéreo, o tema que lançou a banda para a ribalta em 2020, fez a sala literalmente tremer. Foram vinte canções, sem pausas longas, sem momentos mortos — cada riff, cada verso e cada explosão em palco funcionaram como uma declaração de intenções absoluta: o rock está mais vivo do que nunca.
Do primeiro ao último acorde, a Super Bock Arena transformou-se num só corpo: o público saltou, dançou e cantou cada verso de cor, como se aquelas canções lhe pertencessem há anos. A banda correspondeu à altura, entregando-se ao palco com uma generosidade que tornou claro que o Porto não era apenas mais uma data na digressão.
Antonio García e o palco como confessionário
O vocalista Antonio García é um frontman de outra dimensão. Não usa o palco para se exibir — usa-o para confessar. As suas letras não procuram dar lições de moral; funcionam antes como um sentimento partilhado, um ombro onde o público se pode apoiar e desabar. Em Cowboys de la A3, os braços levantaram-se em uníssono. Em Cariño, alguns olhos encheram-se de água. Em Exoplaneta, que fechou a noite, o silêncio de dois segundos antes do último acorde valeu por um discurso inteiro.
Entre canções, García falou em castelhano e ninguém precisou de tradução. A linguagem do rock é universal, e o Porto percebeu isso completamente.
Uma banda, dois álbuns, um fenómeno
Formados em Cartagena, os Arde Bogotá lançaram o seu primeiro álbum La noche em 2021, seguido de Cowboys de la A3 em 2023, duplo disco de platina e número um em vendas em Espanha. Segundo a Arte Sonora, a banda encontra-se já a gravar o próximo álbum, com sessões realizadas em Los Angeles com o produtor Joe Chiccarelli, estando o novo disco previsto para o final do ano.
O Porto foi a segunda paragem portuguesa da digressão, um dia depois de Lisboa. A World Tour 2026 continua agora pela Europa — Londres, Paris, Bruxelas, Berlim —, mas ficou claro que Portugal não foi apenas mais uma data no calendário. A Invicta testemunhou o início de uma história de amor que promete trazer a banda de Cartagena muitas mais vezes a solo nacional.
Fotógrafo/Editor/Engenheiro Eletrotécnico














