O Fumo Visível e o Veneno Silencioso

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O Cinismo de um Sistema que Nos Adoece para depois Nos Vender a Cura.

Há algo muito contraditório nas campanhas anti-tabagistas contemporâneas. E digo isto não para defender o acto de fumar — até porque reconheço, na primeira pessoa, o desgaste físico, psicológico e até ritual de uma dependência. O problema nunca esteve no alertar para os perigos e malefícios do tabaco. O problema está na forma selectiva, moralista e quase performativa com que esta condenação está construída, como se o cigarro concentrasse em si toda a degradação do corpo moderno.
O fumador tornou-se uma figura pública da culpa. Um corpo visível sobre o qual a sociedade descarrega a necessidade de purificação colectiva. As imagens agressivas nos maços, os discursos higienistas e a constante associação entre o cigarro e a morte criaram um discurso onde o tabaco aparece aqui quase como o “mal absoluto”, é facilmente identificável, condenável e tributável. É o inimigo perfeito: tem cheiro, tem fumo, tem imagem. Pode ser mostrado.
Mas o que acho mais absurdo é precisamente aquilo que permanece invisível.

Existe um silêncio quase ensurdecedor em torno das outras formas de intoxicação colectiva, muito mais profundas e estruturalmente normalizadas. A agro-indústria moderna participa diariamente num processo lento de contaminação ambiental e humana que raramente recebe o mesmo grau de condenação pública. Pesticidas, herbicidas, fertilizantes químicos, sementes manipuladas, alimentos ultra-processados e cadeias industriais inteiras que moldam tudo aquilo que chega ao nosso prato — não em função da saúde, mas sim, da rentabilidade, da escala e do consumo contínuo.
E talvez o que mais me perturba é perceber que já não escolhemos verdadeiramente aquilo que comemos. Os grandes aglomerados agro-industriais determinam o que é produzido, distribuído e massificado. Desenvolvem comportamentos alimentares, influenciam os mercados, publicidade, estudos e até políticas públicas. Criam produtos concebidos para gerar repetição, dependência e o consumo constante. O objectivo já deixou de ser alimentar corpos; e passou a ser a manutenção de ciclos de mercado.

Come-se o que foi desenhado para ser consumido em excesso.
E depois surge a consequência mais que previsível: inflamações crónicas, obesidade, diabetes, ansiedade, doenças cardiovasculares, distúrbios hormonais, problemas digestivos, exaustão física e mental. Mas é aqui que o sistema revela a sua engrenagem mais cínica: os mesmos corpos fragilizados por um modelo alimentar industrial tornam-se consumidores permanentes da indústria farmacêutica. O tratamento aparece aqui como a continuação lógica do próprio modelo que ajudou a criar o problema.

Não se trata de negar a importância da medicina ou dos medicamentos — isso seria intelectualmente desonesto. O problema é outro: existe uma estrutura económica onde adoecer deixou de ser apenas uma falha do sistema e passou a ser também um mercado extremamente lucrativo. Produz-se o desgaste e vende-se depois a gestão desse desgaste. O corpo contemporâneo tornou-se simultaneamente consumidor e produto.

E no meio disto tudo, o fumador continua a ser exibido como o grande símbolo do perigo público.
Talvez porque é mais fácil responsabilizar o indivíduo do que confrontar sistemas económicos gigantescos. É mais simples mostrar um pulmão negro num maço de cigarros do que questionar porque razão milhões de pessoas vivem dependentes de alimentos pobres nutricionalmente, carregados de químicos mas promovidos por corporações com uma influência global. O tabaco é visível, quase teatral. Já todos os outros mecanismos de destruição são silenciosos, lentos e profundamente integrados no nosso quotidiano.

Há ainda um detalhe humano que raramente entra nestas campanhas: quase ninguém procura compreender porque é que as pessoas fumam. O vício é tratado como uma falha moral, mas pouco se fala da ansiedade colectiva, da pressão económica, da solidão, do desgaste emocional ou da necessidade de pequenos rituais de fuga num mundo cada vez mais acelerado e artificial. Condena-se o sintoma sem se olhar para o contexto que o produz.

No fundo, talvez o verdadeiro problema não esteja nas campanhas anti-tabagistas, mas na hipocrisia selectiva de um sistema que escolhe cuidadosamente quais os vícios que pode condenar publicamente e quais os que precisa de manter economicamente activos. Porque quando a saúde pública se mistura com interesses económicos gigantescos, a linha entre a preocupação e a gestão estratégica da doença torna-se perigosamente difusa.

Mas, talvez o maior perigo seja precisamente este: quando um sistema consegue convencer-nos de que a doença é apenas uma responsabilidade individual, deixa automaticamente de prestar contas pela forma como organiza a própria sociedade. Continuaremos a apontar o dedo ao fumador enquanto respiramos ar contaminado, consumimos alimentos produzidos sem qualquer preocupação humana e normalizamos ritmos de vida que adoecem o corpo e a mente diariamente. O problema nunca foi apenas o cigarro. O problema é uma estrutura inteira que transforma o desgaste humano num modelo económico sustentável — e quando a saúde passa a coexistir demasiado confortavelmente com o lucro da doença, o verdadeiro veneno deixa de ser apenas aquilo que fumamos, para passar a ser tudo aquilo que aprendemos silenciosamente a aceitar.

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