O Sol Tardou a Aquecer (Esboço de uma Liberdade amarga)

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Comemora-se hoje o 25 de Abril. Naquela madrugada de 1974, a luz ainda incipiente ousou trespassar as sombras do medo que imperavam neste país de escuridão. Foi, inequivocamente, o dia em que o Sol iluminou toda uma nação que sobrevivia numa obscuridade quase doentia. O povo tinha como única garantia as imensas dificuldades da vida; o saber limitava-se ao básico, pois a continuidade dos estudos era privilégio de poucos, daqueles que tinham a sorte de habitar as cidades. Os outros, confinados à distância e à impossibilidade, ficavam pelo caminho, tolhidos pela incapacidade de irem mais longe.

Foi, porém, nesse dia que se começou a desenhar um esboço para o caminho da democracia. Mas foi um esboço de tal forma imperfeito que pouco ou nada correu bem. Conseguiram turvar ainda mais as águas que corriam nos rios deste país e o Sol da esperança, pelo qual todos ansiavam, tornou-se mais opaco do que outrora. Pobre povo, que esmorecia a cada dia. A perseguição aos ditos “capitalistas” tornou-se a obsessão de revolucionários interesseiros. Guardo ainda na memória quando um deles, já investido de poder, respondeu à pergunta sobre o destino dos reacionários com uma arrogante presunção: “Vão todos para o Campo Pequeno” — como se fossem animais destinados ao matadouro.

Enganaram-se os que pensaram que a caminhada para a almejada liberdade seria fácil ou rápida. Puro engano. O corajoso golpe de Estado que alguns capitães se atreveram a encetar levou-nos, pouco depois, por caminhos temerosos e incógnitos. O país caiu na desordem; um povo cansado de uma ditadura deixava-se conduzir para uma outra, de esquerda, quiçá bem pior que aquela que nos governara por mais de quarenta anos.

A liberdade que o povo merecia ia acontecendo, mas sob um paradoxo brutal: enquanto aqui se celebrava, lá longe, onde durante séculos tremulara a bandeira portuguesa, essa mesma liberdade tomava o caminho da violência, da extorsão, da morte e da expulsão. Perderam-se bens conquistados com o trabalho de uma vida inteira. A liberdade de uns era, tragicamente, a desgraça de outros.

Não sou contra a liberdade, obviamente. Mas esta exigia inteligência, evitando o descalabro de quem vivia ou nascera nas províncias ultramarinas. Em vez disso, tudo foi feito com a ligeireza da incompetência e sob o domínio do partido que então controlava o país.

De 1974 a 1976, vivemos o caos dos oportunismos e das vinganças mesquinhas, com prisões aleatórias e sem culpas formadas. Em nome da “revolução”, cometeram-se barbaridades: a destruição do tecido empresarial e uma reforma agrária que dizimou bens, destruiu máquinas e paralisou a produção. Um país que produzia milhares de toneladas de trigo deixou de colher um único grão. Magnífica reforma agrária, de facto…

Felizmente, após este longo período de assaltos e confusões, aconteceu Novembro. Foi nessa altura, e somente aí, que realmente nasceu a democracia e a verdadeira liberdade. Por isso, hoje, comemoro o 25 de Abril de Salgueiro Maia, mas também o 25 de Novembro de 1976, de Ramalho Eanes e Jaime Neves.

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