A chuva não cai em Portugal: desce como um véu de cinza rasgado pelo vento, trespassa telhados, invade ruas, transforma ribeiros em torrentes que não perguntam nomes nem fronteiras — e é nessa água que hoje nos reconhecemos todos iguais, todos frágeis, todos vivos: porque a tempestade, como o tempo, não distingue partidos nem credos, apenas nos revela o que somos quando o chão desaparece debaixo dos pés.
Chove há dias sem tréguas sobre o Minho. O vento e a neve vergam os pinheiros da Serra da Estrela como se quisessem arrancá-los à terra. Nas margens do Mondego, o rio engoliu caminhos; em Aveiro, a ria transborda em lágrimas salgadas. Portugal, nos últimos dias de janeiro e nestes primeiros dias de fevereiro de 2026, parece um navio à deriva sob céus de chumbo. E enquanto a água desce dos montes e o mar se enfurece, milhões de nós preparamo-nos para um outro embate: o das urnas…
Em Leiria, o rio Lis transbordou com fúria e inundou o centro de lançamentos, enquanto na A17 entre Aveiro e a Marinha Grande as árvores centenárias vergaram como palha sob ventos que ultrapassaram os 130 km/h. Na Praia da Vieira, hotéis desfeitos pela tempestade Kristin revelaram interiores esventrados ao mar; centenas de casas ficaram sem telhados, isoladas, sem luz, sem aquecimento, sem telecomunicações — e ainda assim, ao amanhecer de 29 de janeiro, eram os próprios moradores, encharcados e exaustos, a desobstruir ruas com as mãos nuas, a partilhar o último pão entre vizinhos desconhecidos, a erguer tendas de emergência onde horas antes havia apenas escombros.
O Pinhal de Leiria, esse pulmão ancestral que já resistiu a incêndios e guerras, voltou a ser arrasado pelo vento — mas não pela memória: porque enquanto as máquinas ainda não chegavam, eram os homens e mulheres da terra a recolher cada ramo partido, a guardar cada semente, a jurar em silêncio que plantariam de novo. Esta é a força que nenhuma tempestade arrasta: não a do betão ou do aço, mas a daqueles que, mesmo com a alma encharcada, escolhem estender a mão antes de secar as próprias lágrimas.
Mas escuta, leitor, uma voz que atravessa quatro séculos sem perder o fôlego. É Dom Quixote, o fidalgo magro e louco de La Mancha, que, ferido por pedras de pastores e abandonado pelo desânimo do seu Sancho, ergue a cabeça e diz: “Todas estas inclemências que nos acontecem sinais são de que breve se nos há-de o tempo abonançar”. Não é um consolo vazio, nem uma ilusão romântica. É uma lei cósmica: nem o mal nem o bem são perduráveis. Quem sofre há muito, aproxima-se do alívio; quem se afoga em trevas, já pressente a primeira claridade.
E não é isto que vemos hoje nas ruas das nossas cidades? Bombeiros que não dormem há 48 horas para salvar vidas em Odemira; vizinhos de Alcácer do Sal que abrem portas a desconhecidos cujas casas a água levou; jovens de Lisboa que distribuem mantas e sopa quente aos sem-abrigo encharcados. Esta é a face verdadeira de Portugal: não a do medo, mas a da coragem silenciosa; não a da divisão, mas a da mão estendida.
Há quem queira transformar o país num campo de batalha de ódios antigos, de rancores fabricados, de medos amplificados. Discursos que dividem portugueses entre «nós» e «eles»; que transformam a diferença em ameaça; que confundem patriotismo com exclusão. Contra isso, ergamos a lição quixotesca: as tempestades passam, mas só se soubermos navegar juntos.

Não vivamos com o coração gelado pelo medo. Vivamos com a memória quente daqueles que, nestes dias de chuva torrencial, não perguntaram a quem pertencia a casa alagada antes de entrar para salvar uma criança, um idoso. Não vivamos para castigar, mas para construir. Não vivamos para isolar, mas para unir.
Porque, como sussurra Cervantes através dos séculos: “tendo o mal aturado já tanto, já o bem nos deve estar a chegar”. As águas hão-de baixar. O sol haverá de voltar a aquecer os telhados de telha vã. E Portugal — este país de mareantes e poetas, de gente que aprendeu a dançar com a chuva — descobrirá, mais uma vez, que a sua força não está na ausência de tempestades, mas na coragem de as enfrentar de mãos dadas.
Ao saíres de casa sob a chuva fina de fevereiro, leva contigo esta certeza: depois da tempestade, vem sempre a bonança. Mas só vem se acreditarmos nela — e se, sobretudo, a construirmos juntos.
Professor, Poeta e Formador







