Dia 18 de Setembro foi Dia da Igualdade Salarial.
Confesso que há algo em mim que se revolta profundamente quando olho para os números. Em Portugal, as mulheres recebem em média menos 242 euros por mês do que os homens. São quase três mil euros por ano que desaparecem sem justificação. No setor privado, a diferença triplica face ao público e, em cargos de topo, pode chegar a mais de dez mil euros anuais.
Como é que alguém pode ler isto e continuar a fingir que está tudo bem? Como é que isto continua a acontecer num país que tanto gosta de se proclamar moderno, justo e europeu?
Na União Europeia, o fosso médio é de 12%. Portugal anda a oscilar entre 12,5% e 16%, dependendo da métrica que se use. Este ano (2025), caímos 17 posições no ranking mundial de igualdade de género.
Tenho sempre mulheres como referências de liderança. Foram as minhas chefes, as minhas orientadoras, as minhas colegas que mais me ensinaram. Ao nível pessoal, também tive exemplos femininos muito fortes que marcaram a minha forma de ver o mundo. É por isso que estes números me doem ainda mais. Não são números. Estatísticas. São mulheres de carne e osso que eu conheço. São profissionais que vi trabalhar mais, produzir mais e, mesmo assim, ganhar menos.
Basta olhar para os salários para perceber que a igualdade está só no papel.
Em 2023, até criaram uma norma nacional para permitir auditar disparidades, mas muito poucas empresas a aplicam. Porque mexer no que está errado dá muito trabalho. E porque enquanto não houver fiscalização séria, há quem prefira manter tudo tal como está.
Não me venham dizer que é por “escolha”. Que são as mulheres que escolhem setores mal pagos, horários parciais ou pausas na carreira. As escolhas não existem no vazio. São feitas pelo preço das creches, pelas licenças parentais desenhadas para que as mulheres fiquem em casa, pelas normas sociais que continuam a atribuir o peso do cuidado às mães.
Não é escolha livre. É condicionamento estrutural.
O Fórum Económico Mundial estima que, ao ritmo atual, a igualdade global só será atingida daqui a mais de cem anos. Cem anos! É admitir que nem eu, nem a minha filha, nem a filha dela verão essa mudança em vida. Isso para mim não é aceitável.
O mais revoltante é saber que isto não é apenas uma questão de justiça social. É também uma questão de negócio. As empresas que pagam de forma justa atraem mais talento, retêm as (melhores e mais bem preparadas) pessoas, aumentam a produtividade. A desigualdade não só é injusta como é estúpida de um ponto de vista económico.
Não consigo olhar para o Dia da Igualdade Salarial como uma efeméride qualquer. Para mim, é demonstração de tudo o que ainda está mal, de tudo o que me irrita no discurso das empresas que dizem cumprir e na verdade, não cumprem.
E é também um apelo direto: Quem tem poder de decisão assuma coragem!
A igualdade não é um favor. É uma obrigação.
É a única forma de construirmos um país decente.







