O Cidadão solidariza-se com as vítimas dos incêndios; estaremos sempre, como órgão de comunicação social, ao serviço das pessoas e disponíveis para ajudar.
Porém, não exploraremos as desgraças e a tragédia humana; não faz parte da nossa filosofia editorial.
A forma como as televisões portuguesas levam, até ao limite e em direto, as imagens das pessoas a sofrer o horror do fogo que lhes destrói tudo o que têm, serve para quê e a quem?
Fazem-no com todas os maus acontecimentos- guerras, acidentes de viação, incêndios, inundações e outras tragédias. Em direto, expõem horas a fio o sofrimento de uns, a outros que, sentados no sofá, vão assistindo. Para as televisões, um jogo de futebol em direto ou uma desgraça humana são, editorialmente, a mesma coisa.
Para nós, não.
Noticiamos com isenção, não misturamos comentário com notícia e temos as nossas colunas de opinião abertas a todos os cidadãos. Aí podem opinar, criticar, denunciar e expor em liberdade o que pretenderem.
Informamos incêndios e outros dramas, mas não exploramos a desgraça. Preferimos a causa das coisas. Saber por que razão as bocas de incêndio, em muitos locais, estão inoperacionais. O que leva a ignições simultâneas em três locais próximos e, muitas vezes, junto das localidades ou o que acontece aos, alegadamente, pirómanos. Ou a razão de continuarmos a não ter os terrenos limpos. Os bombeiros possuem os meios humanos e materiais para agir? Haverá interesses empresariais a quem serve o fogo?
E os prejuízos? Haverá lucros?
Sem alimentar teorias da conspiração – outro aspeto que não faz parte da nossos Princípios de edição – preferimos ouvir as pessoas e contar as suas histórias. Ou dar-lhes a oportunidade de as contar. Aí sim, em direto.
Ao passarmos em revista os incêndios e os locais onde, infelizmente, ainda lavram, ficámos com a certeza de que a incompetência política continua. A sobreposição das decisões políticas – para quem o importante são os votos dos cidadãos – sobre os pareceres técnicos, mantém-se ano após ano. Há especialistas para falar e decidir quanto ao uso de aviões no combate ao fogo. Não é uma senhora ministra, por ter um cargo político, que passa a entender de assuntos técnicos relativamente a incêndios.
As tragédias em direto desfazem-nos o coração, é verdade. São excessivamente intrusivas, também é certo. Têm uma única vantagem – mostram, não dizem, mostram, que “o Rei vai nu” e a incompetência política é algo que existe e à qual estamos tão habituados quem nem reagimos.
De resto, esses diretos servem apenas para saciar o apetite a “voyeurs”.
Jornalista








