Cheirava a sal e a memórias guardadas entre as areias finas da praia e a vista para o imponente Monte de Santa Tecla, do outro lado do rio Minho. Ela voltava à vila de Moledo. Era início de setembro, os turistas começavam a debandar, deixando a vila para os seus moradores e às tantas histórias que o verão costuma lançar para o fundo do mar.
Corria um vento selvagem caraterístico das praias do Norte. Luísa chegou ao pequeno café da praia, onde tantas vezes se sentara a observar o mar. Passava das quatro da tarde. Trazia um vestido leve e o cabelo apanhado e uns óculos de sol escondiam os olhos que mal disfarçavam a ansiedade. Pediu uma água.
Não esperou muito. Arménia apareceu, como prometido, com um ar de quem vinha com o coração a palpitar. Reconheceram-se ao longe, no sorriso e no andar — como se ainda ontem se tivessem visto — mas a última vez que se viram já fazia mais de trinta anos. Despediram-se num verão, neste mesmo café, quando Luísa emigrou para França.
— Mena… — disse Luísa, levantando-se.
— Luísa… — respondeu Arménia, num tom que misturava surpresa e ternura.
O abraço foi longo e meio tímido, mas carregado de uma saudade antiga. Por instantes, nenhuma soube o que dizer. Olharam-se silenciosamente.
— Ainda gostas do galão com canela? — perguntou Arménia, sorrindo.
— Como é que te lembras disso?
— Nunca me esqueci de nada… nem do último verão antes de partires para França.
Luísa baixou o olhar. Mais uma vez o silêncio entre elas, mas não desconfortável. Era o tipo de silêncio que só existe entre quem já partilhou demasiado…e partilharam muito.
— Nunca mais voltei aqui desde então — confessou Luísa. — Tinha receio de encontrar tudo igual… menos nós.
— E encontraste?
— Talvez. Mas ver-te aqui… é como abrir uma janela que esteve fechada durante anos.
Arménia sorriu com doçura. Tinha os olhos marejados.
— A vida deu muitas voltas, Luísa. Tu foste viver os teus sonhos e eu fiquei a cuidar dos meus — disse, apontando com um sorriso para o pequeno atelier de rendas e bordados, que se avistava dali. — Mas nunca deixei de pensar em ti.
— Nem eu em ti. — respondeu Luísa. — E sabes o pior? Estivemos tão perto tantas vezes. Escrevi-te uma carta. Nunca enviei.
— Eu escrevi-te três. Estão guardadas numa caixa com um lenço que bordei para ti.
Riram-se, como se riam quando passeavam ao domingo nas romarias minhotas.
E nesse rir desprendido, as barreiras que o tempo tinha construído dissiparam-se.
Atropelavam-se na conversa que durou horas. Tinham tanto para dizer!
Sobre os filhos que cada uma tinha ou não teve. Sobre os dias bons e os maus, os amores frustrados, os empregos. Reviveram um tempo que ainda lhes tatuava a pele.
O pôr do sol acanhado, acolhia-se de mansinho nos braços de um mar ondulante. Já só restava o sonido das gaivotas e das ondas, Mena perguntou:
— Ficas mais uns dias?
— Se me deres abrigo, fico até que o vento emigre… riu-se.
— O quarto da minha mãe está vazio. Ela adorava-te.
— Então é um reencontro abençoado — disse Luísa, pegando na mão da amiga.
E ali, entre um vento norte e o cheiro a maresia que nunca mudou, duas amigas voltaram a reencontrar-se — não como eram, mas como realmente são.
E tanto, tanto para conversar…
Professora e Escritora














