Os seres humanos têm duas grandes ferramentas intelectuais: o Pensamento Crítico e a Bondade. Quando as duas se encontram no cérebro do mesmo artesão, temos, no resultado comportamental e na obra daquele cidadão (intelectualmente optimizado) aquilo a que habitualmente chamamos “uma boa pessoa”.
O que imediatamente sobressai de tal reconhecimento é a sensatez … uma qualidade que faz com que não se seja tão vulnerável às falsas notícias e às técnicas de persuasão usadas desregradamente em situações de elevada importância na nossa vida em sociedade, como são, por exemplo, as campanhas eleitorais.
A manipulação afectiva e o dogmatismo religioso são degraus que fazem a escada por onde os políticos sobem quando nós lhes facultamos a subida… depois tropeçamos nela e estatelamo-nos ao comprido, num esbardalhanço que pode constituir um pesadelo durante alguns anos da nossa existência!
Sendo, todos nós, uns digníssimos representantes de uma espécie animal que tem na inteligência e no afecto, ferramentas únicas que nenhum outro animal nosso companheiro de reino detém, por que razão não aprendemos com os erros que já cometemos na nossa caminhada pela História? Fizemos tantas guerras inúteis no passado e continuamos a fazê-las hoje, como se fosse a primeira vez que nos encontramos na situação que as fabrica!… Porquê?!
A nossa espécie não é inteligente por obedecer a um desenho prévio, a um projecto bem delineado e melhor executado. Não!… A inteligência humana não surgiu repentinamente, como sai uma pomba da cartola do ilusionista; a inteligência é fruto de uma longa evolução (ainda em curso) que, podemos dizer, foi (e é) feita a “corta-mato”, sem termos caminho limpo e desimpedido. É conseguida numa vereda cheia de obstáculos, nos quais esbarramos com frequência. As soluções para os problemas surgidos na caminhada são engendradas nas dificuldades do percurso.
A política é uma ferramenta para se fazer tal caminho, mas é, também, um “campo de trabalho” onde, na maior parte da História que já fizemos, brilham os menos honestos. Não são honestos… mas também não são burros… são manipuladores que, tal como o ilusionista, fazem parecer verdade a mentira que fabricam. E sabem que o efeito da mentira dita (ainda que, com o decorrer do tempo, a “verdade” apregoada venha a ser reconhecida como falsa) nunca desaparece do entendimento de quem a recebeu e aceitou por verdadeira.
Este automatismo da nossa racionalidade acaba por transformar uma mentira no seu contrário… na irracionalidade que nos leva a acreditar em palavras de ordem usadas em política como, por exemplo: “verdade”, “mudar”, “limpar” e “construir”. Palavras vãs que jamais farão parte das realizações do político que as profere como se fosse parábola bíblica debitada dos púlpitos de igrejas e seitas, para uma plateia de crentes educados para aceitarem por verdade tudo quanto nos púlpitos se propala… mesmo que seja a maior mentira alguma vez fabricada.
As palavras têm uma força própria e são mais convincentes quanto mais credenciado for o autor que as escreve ou diz. Não era por acaso que, no tempo em que fui criativo gráfico em agências de publicidade, se recorria ao serviço de poetas e escritores para a criação de mensagens publicitárias que cumprissem bem a função de atingir o público alvo com eficácia.
Muitas dessas mensagens ainda se mantêm na memória dos que as ouviram “e beberam” no seu tempo, acreditando nelas com a força que a sua recordação actual garante terem sido eficazes. São exemplo frases como: “Aquela Máááquina” (António Gomes de Almeida, humorista e técnico de publicidade da Regisconta); “Há Mar e Mar, Há Ir e Voltar” (poeta Alexandre O’Neill) e “Minha Lã, Meu Amor” (poeta Ary dos Santos).
Hoje vive-se um tempo em que a técnica persuasiva do uso da palavra se adulterou e, da eficácia comercial para a venda de um produto, ou da memorização de um conselho útil, se passou para a agressividade ideológica por parte de agitadores sociais e de seitas ou grupos políticos que querem transformar a sociedade num local mais perigoso para se viver, caso os putativos eleitores “bebam” da taça envenenada que tais seitas e grupos lhes dão para saciarem a sua malvadez e desumanidade perante a entrada do inferno, na convicção de se encontrarem à porta do céu.
No panorama político actual temos, na extrema direita, uma sofisticada indústria de persuasão, que é ouvida por uma população maioritariamente crédula e desatenta à evolução social, sem qualquer filtro que lhe permita distinguir o que é falso do que é real, crendo na vigarice da banha de cobra e na “superioridade nacional” contra os “imigrantes malfeitores”.
Todos somos alvo dos agentes de interesses que nunca são os nossos, mas que usam o “vírus mental” da falsa notícia, no intuito de nos fazerem acreditar que eles são tudo o que precisamos e que vamos conseguir… se acreditarmos neles e os elegermos.
E depois… se não usarmos as tais ferramentas constituídas pelo Poder Crítico e pela Bondade, referidas no início do texto, o mais certo é acabarmos por reconhecer que fomos enganados e termos um desabafo como o que o meu pai costumava dizer em tais circunstâncias: “Venderam-me merda de porco por papas de sarrabulho”!… Necessário é que não compremos tal mistela.

Jornalista/Cartunista







