Só há pouco tempo soube, por um documentário no Canal ARTE, que a imagem de Jeanne Duval foi apagada do quadro O Ateliê do Pintor (1854-55), onde Gustave Courbet se auto-retrata com o seu mundo. Na grande tela do Museu d´Orsay, Duval figurava ao lado de Charles Baudelaire, amigo do Pintor, olhando para o Poeta que se vê no canto direito, absorto na leitura.
Jeanne Duval (ou Lemaire ou Lemer) foi o grande amor de Baudelaire com quem teve uma relação longa e turbulenta, pontuada por separações e reencontros. Mas ela – que ele dizia «feita para a noite» – era a «Vénus Negra» dele e a sua Musa. Sem ela, a sua obra mais universal, As Flores do Mal, não teria existido. Foi Jeanne que a inspirou e muitos poemas foram-lhe dedicados.
Jeanne, ou artisticamente Mademoiselle Berthe, foi actriz e bailarina, da fama de prostituta não se livrou, mas o seu maior «pecado» consistiu no «pecado original» de ser mestiça. Sabe-se quase nada sobre o seu verdadeiro local de nascimento (provavelmente o Haiti), sobre o seu verdadeiro apelido, sobre o seu verdadeiro aspecto. Segundo os que gostavam dela, era alta, generosa de formas, com cabelos ondulados que enquadravam um rosto agradável, onde uns olhos verdes enormes e magníficos («como terrinas») ressaltavam na tez acobreada. As poucas pinturas e desenhos sobreviventes que a retratam apontam neste sentido. Mas para os que a odiavam e quiseram denegri-la, era pequena, de peito chato, «uma preta com horrível carapinha». Venceram estes, envolvendo-a numa espiral de ódio puramente racial que se empenhou em negar a sua existência na vida de Baudelaire e na génese de As Flores do Mal. A camada de pintura, com que Courbet acabou por a ocultar no seu quadro alegórico, é um símbolo disso.
Umas dezenas de anos antes de Jeanne, nasceu em 1745 um outro caribenho que teve uma vida extraordinária, igualmente condenada ao esquecimento. Joseph Bologne nasceu escravo, filho natural de um rico proprietário de plantações de Guadalupe, colónia francesa, e de uma sua escrava. Aos 11 anos, o pai levou-o para França para que o seu então único herdeiro masculino fosse educado pelos melhores preceptores. A educação foi primorosa e o aluno exemplar. Aos 20 anos era um campeão invencível de esgrima, um espadachim temível, um formidável cavaleiro, um brilhante violinista e um compositor talentoso. O pai, que fazia parte do grupo de íntimos do rei Louis XV, conseguiu-lhe o cargo de conselheiro do rei e, depois, o de membro da exclusiva guarda real, comandada pelo rei em pessoa. O menino escravo, reconhecida a paternidade pelo pai e libertado, ascendia à nobreza e tornava-se o Chevalier Saint-George.
Bologne foi aluno do grande violinista Jean-Marie Leclair e do compositor François Gossec, tendo passado a dirigir a orquestra Concert des Amateurs quando este teve de ir dirigir a orquestra Concert Spirituel.
A rainha Marie Antoinette encantou-se com o seu virtuosismo e cedo o admitiu no seu círculo pessoal para tocarem música, tendo-lhe dado sempre apoio na sua carreira, apesar de detestar a família de Louis Philippe d’Orléans com quem Bologne mantinha estreitos laços, de este ser membro da Maçonaria, a qual a monarca começara a sentir como uma séria ameaça, e da estranheza na Corte pela confiança e intimidade concedida a um mestiço. A rainha apoiou a candidatura de Bologne à direcção da Academia Real de Música (a Ópera de Paris), mas isso não foi suficiente para vencer a viva oposição das primeiras figuras femininas do canto e do bailado da instituição, perante a perspectiva de terem um mestiço como director. Não faltou quem dissesse que a rejeição tinha mais por base ciúmes e despeito porque o Chevalier Saint-George era também um homem alto, atlético, muito boa figura e de quem se dizia ter sido dotado pela natureza de uma prodigiosa virilidade que o tornava disputado por inúmeras damas da melhor condição social.
Os brilhantes concertos para violino que Bologne compôs viriam a valer-lhe a alcunha de «Mozart Negro», mas antes disso o compositor foi alvo da antipatia e despeito do jovem Mozart quando este, aos 22 anos, fez a sua terceira visita a Paris e a sua permanência de meses passou despercebida. Contrariando as indicações do pai, Mozart recusou apresentar as suas obras na orquestra Concert des Amateurs, dirigida por Bologne, onde ele executava as suas composições, com grande sucesso. Não falta quem diga que esta antipatia está na origem da criação de Monostatos, a sombria personagem, de corpo e alma, da ópera A Flauta Mágica, de Mozart. Curiosamente, Bologne foi o primeiro mestiço admitido numa loja maçónica e viria também a dirigir a orquestra maçónica Concert de la Loge Olympique. Foi também 1º Coronel da Legião Negra, o regimento do exército revolucionário que, após a Revolução Francesa, era inteiramente composto por voluntários cuja cor da pele não era considerada «branca».
Após a sua morte em 1799, foi quase completamente esquecido. Só recentemente os seus concertos foram gravados e editados, o mesmo acontecendo a uma das suas óperas, L’Amant Anonyme. Stephen Williams realizou em 2022 o filme Chevalier que ficciona a vida daquele que John Adams, futuro presidente dos EUA, descreveu no seu Diário como «o homem mais bem preparado da Europa para a equitação, a corrida, o tiro, a esgrima, a dança e a música».
Um outro francês natural de Guadalupe, também nascido escravo, como indicia a inexistência de acta de baptismo nos registos paroquiais (Aimé Césaire frisa que o nome foi a primeira coisa expoliada aos escravos), teve igualmente uma carreira artística extraordinária que cobriu um longo arco temporal, desde o Ancien Régime até à Monarquia de Julho. Também a ele o pai, procurador real e proprietário abastado de plantações de cana de açúcar, o levou para o continente francês muito jovem (14 anos). Guillon Lethière começou a apreender desenho em Ruão, prosseguiu estudos na Academia Real de Pintura e Escultura e depois em Roma, como pensionista do estado durante 4 anos. Cultor da Pintura Histórica, mitológica, heroica e paisagística, fez a sua estreia no prestigiante Salon de Paris em 1773, primeiro degrau de muitos no mesmo evento a partir de então.
Em 1807 foi nomeado director da Academia de França em Roma pelo Imperador Napoleão Bonaparte, o que deu maior impulso à sua carreira internacional. A sua grande tela Bruto condenando os filhos à morte (1811) foi muito apreciada e comentada na Europa e granjeou-lhe grande nomeada, embora o tenha feito incorrer no risco de desagradar ao Imperador porque o irmão deste, Lucien, protector do pintor, dava rosto a uma das personagens e tinha entretanto caído em desgraça.
Com a Restauração e a subida ao trono do conservador Louis XVIII, a cor da pele e a protecção bonapartista custaram a Lethière a interdição pelo rei do seu ingresso no Instituto de França, para o qual fora eleito. A eleição repetiu-se em 1818 e o rei não só acabou por aceitá-la como agraciou o Pintor com a Legião de Honra. No ano seguinte foi nomeado professor da Escola de Belas Artes de Paris e as encomendas reais continuaram até à sua morte em 1832.
O nome e mestria de Lethière acabaram esquecidos duradouramente com a alteração dos gostos estéticos, as novas correntes e a rejeição do academismo e do neo-classicismo. Porém, duas grandes exposições retrospectivas, em 2024 e 2025, vieram recuperá-los, respectivamente no Clark Art Institute, no Massachutts, EUA, e no Museu do Louvre, em Paris.
Neste tempo em que proliferam manifestações de racismo e de ódio pelos estrangeiros, fundado na cor da pele, constituem esperança e farol os exemplos apontados de recuperação da memória quanto ao mérito e relevo dos que, pela cor da pele, foram apagados da História que ajudaram a escrever.
Jurista














