A Fundação da Academia de Ciências de Lisboa
O século XIX foi um período de grandes avanços científicos na Europa e no mundo, mas em Portugal o progresso chegou de forma lenta e desigual. Na quarta sessão do curso os participantes foram levados numa viagem pelos desafios e conquistas desta era, marcada por mudanças políticas, económicas e culturais que moldaram a ciência nacional.
Tendo como ponto de partida, ainda o final do século XVIII, Carlos Fiolhais começou por sublinhar a importância da Academia de Ciências de Lisboa, fundada em 1779 sob o reinado de D. Maria I, como um dos poucos bastiões do conhecimento em Portugal naquela época. “A ideia veio de um sobrinho da rainha, que a alertou para a existência de academias no estrangeiro. Foi assim que nasceu a Academia de Ciências, que ainda hoje é uma instituição fundamental para o país”, explicou o professor. O primeiro secretário da Academia foi o Abade Correia da Serra, um botânico notável e diplomata que viria a ser o primeiro representante português nos Estados Unidos e a travar amizade com Thomas Jefferson.
A Influência da Política na Ciência Portuguesa
O professor destacou a ligação entre ciência e política ao longo do século XIX, mencionando figuras como D. João VI, que foi obrigado a partir para o Brasil com a chegada das tropas napoleónicas. “É daí que vem a expressão ‘ficar a ver navios’”, brincou o lente, referindo-se ao facto de os franceses terem chegado a Lisboa e encontrado a família real já em fuga. Este período de instabilidade política afetou profundamente o ensino e a prática científica no país. “A ciência não podia florescer em tempos de guerra e convulsão social”, acrescentou.
Um dos momentos de maior tensão ocorreu com a Guerra Civil entre liberais e absolutistas, que se prolongou ao longo da primeira metade do século XIX. Carlos Fiolhais recordou um episódio particularmente trágico, conhecido como o atentado dos lentes de Coimbra, em que vários professores da universidade foram assassinados durante a instabilidade política. “A violência entre fações políticas teve um impacto direto na ciência, pois impediu a criação de condições para o florescimento do conhecimento”, enfatizou.
A Expansão do Ensino Superior
Apesar dos desafios, algumas instituições científicas começaram a consolidar-se. O físico mencionou a criação da Escola Politécnica de Lisboa e da Academia Politécnica do Porto, que procuraram rivalizar com a Universidade de Coimbra. No entanto, este processo encontrou resistência. “A Universidade de Coimbra não queria concorrência. Fez tudo o que pôde para impedir que surgissem novas universidades no país”, afirmou.
A falta de um ensino superior estruturado e modernizado dificultou a criação de novas escolas especializadas, mas ao longo do século surgiram instituições que vieram a desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento da ciência e da tecnologia em Portugal.
O Atraso da Revolução Industrial em Portugal
No campo da física, o século XIX foi marcado por avanços notáveis, como o desenvolvimento da termodinâmica, impulsionada pelo estudo das máquinas a vapor. No entanto, Portugal permaneceu atrasado em relação à Revolução Industrial. “A primeira máquina a vapor que foi para o Brasil, na altura parte do império português, naufragou antes de chegar ao destino. A segunda chegou, mas não havia ninguém que soubesse montá-la”, contou Carlos Fiolhais, arrancando gargalhadas da plateia.
A eletricidade e o eletromagnetismo também foram temas centrais da sessão. O professor explicou a importância das descobertas de Michael Faraday e James Clerk Maxwell, que revolucionaram a nossa compreensão do mundo físico. Contudo, Portugal demorou a integrar essas descobertas. “A ciência mundial explodiu no século XIX, mas nós continuámos a assistir a tudo em segunda mão”, lamentou o douto professor.
A Receção das Ideias de Darwin
A receção das ideias de Charles Darwin foi outro ponto debatido. O livro A Origem das Espécies, publicado em 1859, demorou 42 anos a ser traduzido para português, o que reflete a resistência do país a novas teorias científicas. “Portugal não tinha apenas um atraso industrial, tinha um atraso educativo e intelectual”, afirmou, apontando que apenas no final do século XIX a alfabetização começou a aumentar significativamente.

Ainda assim, o século XIX não foi destituído de figuras científicas de relevo. O professor destacou nomes como José Vitorino Damásio, pioneiro na telegrafia em Portugal, e Adriano Paiva, que chegou a conceber uma teoria sobre a televisão décadas antes da sua invenção. “Ele teve a ideia, mas não tinha os meios para a concretizar”, disse.
O Impacto Económico e o Declínio Português
A sessão terminou com uma reflexão sobre a posição de Portugal no final do século XIX. O professor mostrou dados históricos que revelam como, em 1830, Portugal ainda era um dos países mais ricos do mundo, mas foi ultrapassado por várias nações devido à falta de investimento na ciência e na educação. “No início do século XIX, estávamos mais ricos do que os Estados Unidos. Em 1970, éramos o país mais pobre da Europa Ocidental”, concluiu.

O curso aproxima-se do fim, mas ainda há muito por explorar. Na próxima sessão, Carlos Fiolhais abordará o século XX e a forma como Portugal começou a recuperar terreno no panorama científico global. Uma jornada pelo conhecimento que continua a fascinar todos os presentes.
OC/RPC
Nota de edição: Este artigo foi enriquecido, integrando algumas sugestões gentilmente cedidas pelo Professor Carlos Fiolhais.

Editor Adjunto, Eng. Eletrotécnico e Aluno da Licenciatura em Gestão do Património Cultural







