Poucos saberão por que é habitual dizer-se que o “Porto foi o berço da República” e, menos ainda, conhecerão de modo mais aprofundado o que deu origem à revolta republicana de 31 de janeiro de 1891.
A Revolta ocorrida no dia 31 de janeiro de 1891, também designada «Revolta do Porto», foi uma tentativa de golpe militar republicano, promovido por um grupo de militares e civis no Porto, que almejava derrubar a monarquia e instaurar a república. A liderar e a impulsionar o movimento estavam forças reunidas e comandadas pelo Capitão Amaral Leitão, o Alferes Rodolfo Malheiro e o Tenente Coelho, seguidos por inúmeros civis entre os quais se destacaram algumas das figuras intelectuais da época, tais como: Alves da Veiga, Basílio Teles, João Chagas, Paz dos Reis, Sampaio Bruno e Verdial Cardoso.
Faremos uma leitura destes acontecimentos a partir de Sampaio Bruno, por um lado devido ao seu envolvimento ideológico e às suas convicções republicanas, por outro porque através deste pensador atualizamos o conhecimento do contexto cultural e histórico do Porto em finais do século XIX. Sampaio Bruno foi um intelectual, filósofo e político portuense, defensor do republicanismo e da luta contra a monarquia, tendo participado em movimentos que visavam a transformação do sistema sociopolítico de Portugal. O seu pensamento foi profundamente influenciado pela cidade onde cresceu e pelos ideais liberais e republicanos que estavam em ascensão no final do século XIX. O Porto, com a sua forte tradição mercantil e intelectual, foi um espaço fundamental para a formação de Sampaio Bruno, tanto nas suas convicções filosóficas como nas suas atividades intelectuais.
A obra deste pensador reflete um momento histórico particularmente rico da história portuguesa, e mais concretamente da sua cidade berço, o Porto. Momento da propaganda republicana e de instauração da República, que o ativista/pensador saudou entusiasticamente num início, tendo-se desiludido ulteriormente em decorrência da feição autoritária assumida pelas novas instituições que substituíram a gasta monarquia lusa.
Foi um filósofo e pensador português que se destacou pela sua visão crítica da política e da sociedade portuguesa da sua época. A sua reflexão sobre a república esteve bastante ligada a um ideal de renovação cultural, social e política para Portugal.

José Pereira de Sampaio, ficou conhecido como Sampaio Bruno (1857-1915). Era filho de José Pais de Sampaio e de Ana Albina Barroso. A sua filiação tem particular importância na sua formação. O seu pai foi inicialmente primeiro-sargento do exército, mas foi expulso e condenado a seis anos de prisão por não ter denunciado colegas, aproveitou os tempos de reclusão para estudar finanças o que lhe permitiu, após a libertação ser funcionário do Banco União do Porto e proprietário de uma padaria na rua do Bonjardim. Era considerado, nas palavras de Ruy D’Abreu Torres: “liberal honrado, mação de alta hierarquia e secretário da Loja Firmeza Portuense, que se entregava à leitura com vivo entusiasmo, principalmente das obras de Voltaire, Rousseau, Jules Simon e Victor Hugo”. Foi esse ambiente familiar, os livros e a influência do pai, bem como as tertúlias a que teve oportunidade de assistir na padaria, que moldaram o carácter e permitiram a formação de uma consciência iluminista a Sampaio Bruno.
Aliás, o nome “Bruno” foi escolhido em homenagem a Giordano Bruno, o filósofo e teólogo italiano que foi martirizado pela Inquisição. Essa escolha de nome é significativa, pois reflete o interesse de Sampaio Bruno por questões filosóficas, especialmente aquelas que desafiavam dogmas e autoridades estabelecidas. Esse vinco no espírito também se refletiu na sua trajetória de pensamento e decidida conduta, pautada por valores como a Justiça, a Liberdade, a Lealdade e a defesa dos mais desfavorecidos. A esse propósito escreveu: “A liberdade nunca é uma dádiva graciosa; é sempre uma penosa conquista; e resulta uma quimera abusiva estar-se à espera de que um povo se prepare para o exercício de seus direitos, a fim de só então lhos conceder.” [Bruno, 1987: 133]
Sem dúvida, a luz e a liberdade brilhavam no pensamento de Sampaio Bruno, e o seu compromisso definitivo era a busca da liberdade, notoriamente da que se traduz numa organização política da nação. Amante da liberdade, liberal e republicano convicto, cedo foi admitido como membro do Diretório do Partido Republicano Português e, em 1886, fundou os semanários “O Democrata” e “O Norte Republicano”, bem como o jornal diário “A Discussão”. No mesmo ano em que publicou o ensaio intitulado “A Geração Nova”. Portugal vivia, nessa época uma profunda crise de valores morais. A esse respeito, o próprio escreveu: “Nós, portugueses, atravessamos uma assustadora crise de enfraquecimento moral coletivo; as mais repugnantes raridades criminais exibem-se com uma abundância desolante.” A agravar toda a situação, com o ultimato Inglês de 1890 em reação ao “Mapa Cor de Rosa” ampliou-se o mal estar vivido em Portugal e agitava-se a opinião pública, essencialmente abalada pelas fortes dificuldades económicas e ultrajada com a afronta à sua soberania. No Porto, as pessoas reclamavam e manifestavam-se de forma vigorosa, os cafés e as ruas enchiam-se de gente, os jornais agitavam a opinião pública. Conspirava-se por toda a cidade, como descreveram João Chagas e Manuel Maria Coelho: “[…] discutia-se em toda a parte, mormente nos cafés; e nos lugares, os mais públicos, se exibiam opiniões revolucionárias. Os militares confundiam-se com os civis; conspirava-se ao ar livre. […] Citavam-se nomes de militares que aderiam. Os sargentos andavam em grupos, fardados, pelas ruas. Não se tomava precauções, não se guardava sigilo”.Foi neste contexto, que no dia 31 de janeiro de 1891 se deu início a um “golpe” no Campo de Santo Ovídio, atual Praça da República, onde vários civis conseguiram a adesão de alguns oficiais, dirigindo-se o grupo de revoltosos para o edifício da Câmara Municipal. À medida que as ruas eram percorridas, juntaram-se muitos cidadãos, sobretudo estudantes, que aplaudiram e gritaram o seu apoio à república. Já na Câmara Municipal, Alves da Veiga, advogado, jornalista, professor e um dos mais prestigiados republicanos do Porto, proclamou a República e foi hasteada a bandeira vermelha e verde do Centro Democrático Federal 15 de Novembro, um clube republicano do Porto.Porém, a revolução teve curta duração. Após empolgante percurso desde a Câmara até à entrada na Praça da Batalha, com o objetivo de aí tomarem os correios e o telégrafo, os revoltosos foram derrotados ao subir a Rua Nova de Santo António. Essa rua que tinha sido aberta com o objetivo de estabelecer a comunicação entre o bairro de Santo Ildefonso e o bairro do Bonjardim. O declive entre as extremidades da rua era tal que foi preciso construir um leito sobre túneis que dão ainda hoje passagem de um lado ao outro da rua. Na parte baixa o leito foi edificado em estacaria, por causa da mina do Bolhão que por aí corria para alimentar o convento da Avé Maria de S. Bento. A Rua abriu ao público em 1805, tendo sido designada como Rua Nova de Santo António. Santo António devido à existência da Igreja de Santo António dos Congregados; e rua nova, pois já existia uma outra rua dedicada ao santo.
Durante a subida da então Rua Nova de Santo António os revoltosos foram parados por um poderoso ataque da Guarda Municipal que, posicionada na escadaria da Igreja de Santo Ildefonso, abriu violenta descarga fuzilante sobre a multidão em marcha, tendo-se aí registado, entre mortos e feridos, à volta de meia-centena de vítimas, o que desde logo intimidou e obrigou à dispersão das hostes revolucionárias. Os mais bravos ainda tentaram resistir. Cerca de trezentas pessoas barricaram-se na Câmara Municipal, mas por fim, a guarda, ajudada por artilharia da serra do Pilar, por Cavalaria e pelo Regimento de Infantaria 18, sob as ordens do chefe do Estado Maior do Porto, General Fernando de Magalhães e Menezes forçou-os à rendição. Os números oficiais deram conta de 12 mortos e 40 feridos, embora os republicanos afirmassem que teriam sido 50 cadáveres os enterrados e muitos dos feridos tenham vindo a falecer posteriormente.
Em severo rigor repressivo, os implicados na gorada revolta, cerca de 700 revoltosos civis e militares, foram julgados por Conselhos de Guerra instalados a bordo de navios estacionados ao largo de Leixões e sentenciados a penas que oscilaram entre 18 meses e 15 anos de reclusão. Alguns dos implicados conseguiram fugir para o estrangeiro: Alves da Veiga iludiu a vigilância e foi viver para Paris, Sampaio Bruno e o Advogado António Claro exilaram-se em Espanha, assim como o Alferes Malheiro, que daí emigrou para o Brasil.

Em memória desta revolta, logo que a República foi implantada em Portugal, a então designada Rua Nova de Santo António foi rebatizada para Rua de 31 de Janeiro, passando a data a ser celebrada dado que se tratava da primeira de três revoltas de cariz republicano efetuadas contra a monarquia constitucional.
A atual Rua 31 de Janeiro foi até meados dos anos 90 do século passado, uma das mais movimentadas do Porto. Era considerada uma “rua chique”, pois, aí se encontravam os luveiros, as alfaiatarias de referência, os cabeleireiros da moda, a tabacaria “Africana” e a Casa “Prud’Homme”, uma mercearia fina, onde se vendiam os melhores queijos e champanhes da cidade.
Porém, atualmente é uma das ruas da baixa mais “degradada” e “abandonada”. Embora continue a ser ponto de passagem de muitos habitantes e o elétrico transporte diariamente vários turistas, as obras do metro na parte inicial da rua junto a São Bento e a quantidade de estabelecimentos comerciais encerrados ensombram o peso histórico da rua 31 de Janeiro. E mesmo a placa comemorativa do centenário da Revolta está colocada debaixo de um emaranhado de fios, o que oculta a beleza da mesma e torna quase impossível a sua visibilidade a quem não sabe onde está colocada.

A maior homenagem àqueles que perderam a vida nesta primeira tentativa de implantação da República está bem viva no Monumento aos vencidos do 31 de janeiro, que se encontra junto à entrada do cemitério do Prado do Repouso. Este Monumento foi realizado pelo escultor Manuel de Carvalho Figueira, o qual tinha idealizado a figura de uma “Republica esboçada”, porém, como morreu muito novo a sua obra foi acabada por outros artistas e inaugurada em 189. A iniciativa foi da responsabilidade de Aníbal Cunha e António José de Almeida, os então diretores da Associação de Beneficência 31 de Janeiro. Esta associação foi constituída após o golpe e procurou recolher dinheiro para apoiar as famílias dos mortos, os presos e exilados e também para a construção do monumento. A edificação deste monumento passou a simbolizar a luta pela liberdade e os valores republicanos, por isso, passou a ser o local de romagem dos republicanos.

Voltemos a Sampaio Bruno, o intelectual encontrava-se exilado em Madrid, quando chegaram rumores de criticas e calúnias contra os revoltosos, por isso não tardou em redigir um texto de protesto que ficou conhecido como o “Manifesto dos Emigrados da Revolução Republicana Portuguesa de 31 de Janeiro”. O texto é revelador das ideias republicanas de Sampaio Bruno enquanto proposta de transformação radical, que visava não apenas mudar a forma de governo, mas também criar uma nova ordem social, mais democrática, laica, e voltada para o progresso e a justiça social.
Regressado do exílio ao Porto, continuou enquanto autodidata a aprofundar os seus conhecimentos sobre os autores mais significativos do pensamento português e europeu e apesar das suas ideias republicanas, Sampaio Bruno foi nomeado diretor da Biblioteca Pública Municipal do Porto, em 1909, tendo-se ali mantido ao serviço até à morte. Já bastante debilitado, viveu os seus últimos anos enraizado na Biblioteca do Porto. A descobrir e editar velhos manuscritos. Sempre a trabalhar. A escrever n’ A Aguia de Teixeira de Pascoaes e de Leonardo Coimbra. A receber uma carta de Fernando Pessoa para colaborar no Orpheu.
O seu legado, a sua obra filosófica e literária, bem como a sua biblioteca pessoal, adquirida após a sua morte pela Câmara do Porto faz parte do espólio da Biblioteca Municipal do Porto. Infelizmente, a mesma encontra-se encerrada para obras de reabilitação, teremos de aguardar mais dois ou três anos para verificarmos se o busto e o núcleo evocativo do trabalho de Sampaio Bruno, aí existente, tomarão lugar de reconhecimento merecido.
Texto: Maria João Coelho
Fotos: Beatriz Pereira
Colaboradora/Filósofa







