
Há muitos anos, no programa “Piano Bar”, onde foi apresentadora, um dia no estúdio da RTP, depois dos técnicos estarem a atrasar todo o processo de gravação, lembro-me das suas palavras:
“Os senhores músicos, estão no estúdio há mais de três horas e até ao momento ainda nada se gravou (?)… Têm meia hora para resolver os problemas, ou nós vamos embora!!!” ( a forma como se referiu aos músicos… E eu era um dos músicos intervenientes, nunca mais esqueci as suas palavras respeitosas para a minha classe, muitas vezes injustamente maltratada, numa indústria que dá trabalho a milhares (milhões) de pessoas no mundo inteiro…
Toda uma vida íntegra, na forma de pensar e de agir!

Que alegria vê-la este ano no espectáculo “Simone o Musical”, a relembrar o homem da sua vida – Varela Silva e o poeta da sua vida – José Carlos Ary dos Santos. Onde a sua grande voz continua e continuará a deslumbrar e a emocionar, quem a ouve.
Casou cedo e cedo se separou, devido aos maus tratos do marido com quem viveu apenas três meses. Pisou o palco pela primeira vez no Cinema Império em 1958, no primeiro Festival da Canção Portuguesa, embora tenha havido uma actuação no Coliseu do Porto, no espectáculo “Comboio Descendente” (programa de variedades), suponho que ainda mais nova, onde, segundo palavras de Adélio Torres, antes de entrar em palco, partiu o salto e foi obrigada a cantar com o pé no ar…
Um ano volvido, canta “Sempre que Lisboa Canta”, num EP com mais quatro artistas, pela editora Alvorada. Em 1963 recebe o Prémio Imprensa. Um ano passado, grava um disco com os temas “Canção Cigana”, “Sempre Tu Amor”, “Quero e Não Quero” e “Alguém Que Teve Coração”.
Com António Calvário, gravam versões do filme “My Fair Lady” e a solo, do filme “Música no Coração”, (Dó-Ré-Mi, As Coisas De Que Eu Gosto e Onde Vais).
Em 1965 recebe o Prémio Imprensa de 1964, ano em que a fantástica canção “Sol de Inverno” de Nóbrega e Sousa e Jerónimo Bragança, vence o Festival RTP da Canção desse ano. Participa no Festival Eurovisão em Nápoles, e é eleita “Raínha da Rádio”. No disco “Praia de Outono” é acompanhada pelo Thilo’s Combo e pela Orquestra de Jorge Costa Pinto.
No Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro (1966), foi escolhida para representar Portugal por Amália Rodrigues, uma dos júris do festival, com a canção “Começar de Novo” (não confundir com a linda balada de Ivan Lins…). É convidada, juntamente com Duo Ouro Negro e Carlos Paredes para o espectáculo “Grand Gala du Music-Hall Portugais”, uma temporada no Olympia (Paris), onde Amália Rodrigues é a principal interveniente.
E chegamos à “Desfolhada” – 1969, de José Carlos Ary dos Santos e Nuno Nazareth Fernandes, um dos maiores êxitos de sempre!!! É recebida em triunfo em Portugal, como aliás é muito bem retratado neste último espectáculo – “Simone o Musical”.
Após o 25 de Abril, continua a sua carreira, agora na revista “P’ra Trás Mija a Burra”, e é convidada para o espectáculo do Jubileu de Isabel II. Buenos Aires recebe-a de braços abertos no Festival OTI (1980), com a orquestra a aplaudi-la em pé.
Na peça de teatro “Tragédia da Rua das Rua das Flores”, faz o papel de “Genoveva” e contracena com Nicolau Breyner e Amélia Rey Colaço, na série televisiva “Gente Fina é Outra Coisa”.
Em 1984, faz a sua incursão no fado com o disco “Simone, Mulher, Guitarra”, com produção de Carlos do Carmo.
1988, foi um ano terrível, com um cancro da mama que Simone conseguiu ultrapassar e dar a conhecer esse flagelo à comunidade feminina. Em 2007, voltou a lutar contra a doença e voltou a superar!
Depois de ter participado no elenco “Passa por Mim no Rossio”, volta à ribalta com o espectáculo ao vivo – “Algumas Canções do Meu Caminho” no Teatro Nacional S. João, no TEC e no Funchal.
1993, a convite de Filipe La Féria, participa “Maldita Cocaína” e passados quatro anos celebra os seus quarenta anos de carreira na Aula Magna e o CD “Simone Me Confesso”, é apresentado na EXPO-98. O livro “Um País Chamado Simone” (Garrido Editores) escrito por Nuno Trinta de Sá, é uma segunda biografia, depois de “Eu Simone me Confesso” de Rita Olivais.
Foi condecorada pela Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (7 de Março de 1997) – Presidente Jorge Sampaio, Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (6 de Outubro de 2015) – Presidente Cavaco Silva, Globo de Ouro Mérito e Excelência (XVI Globos de Ouro 2011) – Dr. Pinto Balsemão
“Amada por todos, Simone de Oliveira é sinónimo de força, autenticidade e coragem. Artista completa, na sua carreira abraçou mais de sete ofícios, fazendo sempre frente aos desafios que a vida lhe lançou. Sem temer, ou temendo muito, desbravou caminhos e fez-se ouvir numa sociedade adversa às mulheres com voz. Foi jornalista, locutora de continuidade, apresentadora de concursos e programas de televisão e rádio quando a voz, possante e enérgica, a fintou. Lutou e sobreviveu; regressou às canções que a notabilizaram, aos poetas controversos a cuja obra cedeu a alma, aos palcos que a amavam como cantora e atriz, ao público que aplaudia a Artista e a Mulher. Aos 79 anos, Simone de Oliveira ainda tem sonhos por concretizar e muitas memórias para partilhar. A partir de temas icónicos como “Desfolhada”, “Sol de Inverno”, “Esta Palavra Saudade” e “Tango Ribeirinho”, Simone vai desvendar-se e, mais uma vez, entregar-se publicamente pelo que acredita, pelo que sente como destino, pelo que a torna um exemplo acarinhado por todos os portugueses.
Mas, SIMONE, O MUSICAL é muito mais que um musical em nome próprio, onde a sua história, recheada de personagens como Varela Silva, Ary dos Santos, Carlos do Carmo e David Mourão Ferreira, é pautada pela música e humor.” www.e-cultura.sapo.pt

“Quando quiserem dizer qualquer coisa sobre mim, telefonem-me ou olhem para a minha cara e digam.” TVI
“Tenho tido a sorte de estar viva com esta idade e de estar lúcida e de ter a cabeça no lugar ainda. Por isso se eu posso cantar uma cantiga de que gosto, 50 anos depois de ter cantado o Sol de Inverno, porque é que eu não vou aproveitar? Fico em último lugar? É óptimo, porque vou beber uma caipirinha e vou feliz.” Expresso
Poderia escrever um Artes e Letras, só acerca da vida dessa Senhora da Música Portuguesa, tal é a extensividade do seu percurso na canção, no teatro, no cinema, na telenovela, etc…
Termino com uma frase do pai do jazz – Luís Vilas Boas:
“Se tivesse nascido nos Estados Unidos, poderia ter sido a Ella Fitzgerald”
Um beijo grande, para essa Mulher Enorme, com quem tive o imenso prazer de pisar o mesmo palco !
Músico/Colaborador







