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Quinta-feira, Fevereiro 12, 2026

13. Quando a pele queima

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O corpo deu sinal primeiro.

Não foi um grito nem um colapso. Foi um aviso lento, persistente, como um calor que não arrefece. A pele ardia por dentro, como se cada nervo estivesse a protestar. O cansaço instalou-se sem pedir licença. Não era apenas fadiga: era um peso que puxava a mente para baixo, tornando cada gesto uma decisão.

A cama tornou-se o único território possível. Não porque fosse confortável, mas porque era o único lugar onde o corpo aceitava ficar. Entre os lençóis, o mundo lá fora continuava, carros, vozes, rotinas, tudo intacto, tudo indiferente. Aqui dentro, porém, o tempo perdia contorno. Dois dias, talvez três. Um nevoeiro espesso onde até formar um pensamento exigia esforço.

Não havia drama. Havia apenas a realidade crua de um corpo que precisava parar.

É estranho como, nesses momentos, a vida se reduz a coisas mínimas: água, respiração. E começamos a reparar em pequenos sinais do mundo — o vento a mexer as folhas, a luz a mudar na parede, cores que antes passavam despercebidas. O futuro deixa de ser um plano e passa a ser uma suposição distante. Não se pensa em vencer, nem em superar. Pensa-se apenas em aguentar.

Mas há algo que fica.

Uma certeza construída à força de repetição. Quem já atravessou dias assim sabe: isto passa. Não hoje, talvez não amanhã, mas passa.

O corpo recupera. A pele acalma. A energia regressa, primeiro em fragmentos, depois em fluxo.

Não porque alguém o mereça. Não porque o mundo se importe. Simplesmente porque é assim que a vida funciona.

E é nessa constatação, fria, quase mecânica, que nasce a força. Não uma força épica, mas uma força suficiente. A força de dar mais um passo. De sair da cama. De aceitar o dia.

Avançar não é coragem.

Avançar é recusar ficar.

Mesmo lento.

Mesmo instável.

Mesmo sem garantias.

Seguir em frente é apenas isso: continuar a existir, apesar de tudo.

E, às vezes, isso basta.

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