O corpo deu sinal primeiro.
Não foi um grito nem um colapso. Foi um aviso lento, persistente, como um calor que não arrefece. A pele ardia por dentro, como se cada nervo estivesse a protestar. O cansaço instalou-se sem pedir licença. Não era apenas fadiga: era um peso que puxava a mente para baixo, tornando cada gesto uma decisão.
A cama tornou-se o único território possível. Não porque fosse confortável, mas porque era o único lugar onde o corpo aceitava ficar. Entre os lençóis, o mundo lá fora continuava, carros, vozes, rotinas, tudo intacto, tudo indiferente. Aqui dentro, porém, o tempo perdia contorno. Dois dias, talvez três. Um nevoeiro espesso onde até formar um pensamento exigia esforço.
Não havia drama. Havia apenas a realidade crua de um corpo que precisava parar.
É estranho como, nesses momentos, a vida se reduz a coisas mínimas: água, respiração. E começamos a reparar em pequenos sinais do mundo — o vento a mexer as folhas, a luz a mudar na parede, cores que antes passavam despercebidas. O futuro deixa de ser um plano e passa a ser uma suposição distante. Não se pensa em vencer, nem em superar. Pensa-se apenas em aguentar.
Mas há algo que fica.
Uma certeza construída à força de repetição. Quem já atravessou dias assim sabe: isto passa. Não hoje, talvez não amanhã, mas passa.
O corpo recupera. A pele acalma. A energia regressa, primeiro em fragmentos, depois em fluxo.
Não porque alguém o mereça. Não porque o mundo se importe. Simplesmente porque é assim que a vida funciona.
E é nessa constatação, fria, quase mecânica, que nasce a força. Não uma força épica, mas uma força suficiente. A força de dar mais um passo. De sair da cama. De aceitar o dia.
Avançar não é coragem.
Avançar é recusar ficar.
Mesmo lento.
Mesmo instável.
Mesmo sem garantias.
Seguir em frente é apenas isso: continuar a existir, apesar de tudo.
E, às vezes, isso basta.
Repórter







