A sala é fria, assética, dominada por uma máquina imponente que mais parece saída de um filme de ficção científica. É aqui, neste cenário clínico e preciso, que começa uma das etapas mais desafiantes do meu tratamento oncológico: a radioterapia.
O processo é meticuloso. Antes de cada sessão, uma máscara termoplástica é cuidadosamente colocada sobre o meu rosto, estendendo-se até à omoplata. Esta peça, moldada especificamente às minhas medidas, fixa-me completamente à marquesa, impedindo qualquer movimento. O objetivo é claro: garantir que a radiação atinja exatamente o mesmo local em todas as sessões, com precisão milimétrica.
Durante quinze a vinte minutos, permaneço absolutamente imóvel. A máscara aperta, a posição é desconfortável, mas o tratamento em si é indolor. Não se sente nada – nem calor, nem formigueiro, nada. O aparelho move-se à minha volta, emitindo sons mecânicos enquanto dispara feixes de radiação invisíveis contra as células cancerígenas que tentam roubar-me a vida.
A imobilidade forçada transforma-se num exercício mental. Impossibilitado de mexer a cabeça, o pescoço ou os ombros, resto ali deitado, sozinho na sala – os técnicos observam-me através de um vidro, monitorizando tudo à distância. É um momento de reflexão involuntária, onde o tempo parece esticar-se e os pensamentos vagueiam entre a esperança e a ansiedade.
Cada sessão é um pequeno passo. Indolor fisicamente, mas carregada de peso emocional. É a ciência moderna em ação, bombardeando o inimigo invisível que cresceu dentro de mim, numa guerra silenciosa onde a vitória se mede sessão a sessão, dia após dia.
Este é apenas o começo de uma jornada que ainda tem muito caminho pela frente. Mas cada vez que saio daquela sala, levo comigo a certeza de que estou a lutar, de que não desisti, de que cada minuto deitado naquela marquesa, preso àquela máscara, é um minuto investido no meu futuro.
Vítor Lima
Repórter














