Todos sabemos que o turismo é uma importante fonte de renda e desenvolvimento, mas quando não é planeado de forma sustentável, pode levar à degradação de ecossistemas, à transformação urbana de bairros e à perda da identidade cultural. Frequentemente as cidades históricas, praias e áreas naturais sofrem com a superlotação, o aumento do lixo e a escassez de recursos são uma constante. Posto isto, é fundamental repensar práticas turísticas e promover um turismo responsável, que respeite os limites ambientais e valorize as comunidades locais. O turismo desordenado, tem criado graves consequências para o meio ambiente, a cultura local e a qualidade de vida das populações residentes.
Portugal tem vindo a sofre com este turismo.
Hoje falo-vos do turismo que acontece em Aveiro, a cidade dos canais, da luz e da cordialidade das suas gentes.
Continua a ser um dos destinos mais procurados por turistas. A verdade é que se entende a preferência: a sua beleza singular entre o encanto das suas ruas e os canais que atravessam a cidade, são um convite irresistível para quem procura uma mistura de tradição e modernidade. Porém, não podemos esquecer com a ascensão do turismo de massas, a cidade tem vivido uma transformação que, por vezes, distorce aquilo que a tornava especial.
Vemos os turistas tomarem conta da urbe e o embate na identidade de Aveiro torna-se mais visível. Muitos habitantes sentem que a cidade está a perder a sua alma. O pequeno comércio – representativo da cultura local, começa a dar lugar a lojas de souvenires. As ruas, que já foram habitadas por uma quietude típica de uma cidade do interior, agora ressoam com o som de turistas ansiosos que seguem as indicações de “influenciadores”, em busca de um cenário perfeito, acotovelam-se para uma foto – mais nítida e amorosa nas pontes dos laços, onde depositam promessas e juras de amor. Um fenómeno importado que dá cor e movimento e alegria aos amantes. Nada contra o Amor.
Mas voltemos ao crescimento do turismo. Um pouco por todo o país, tem o seu reflexo nas infraestruturas das cidades e até no seu próprio bem-estar. Aveiro não é exceção e tem sofrido essa pressão sobre os serviços públicos, o aumento do tráfego e a escassez de espaços de estacionamento; alguns exemplos das dificuldades que os residentes enfrentam no seu dia a dia. Muitos são os preocupados com o aumento da pressão imobiliária e o consequente aumento dos preços, o que os leva a questionar se Aveiro ainda é, de facto, “sua”.
Neste contexto o futuro de Aveiro não está em questionar o turismo, mas em saber como acolhê-lo de uma forma que preserve a sua autenticidade, respeite os limites ecológicos e proporcione uma experiência enriquecedora tanto para os visitantes quanto para os moradores. A cidade tem uma beleza ímpar, mas a verdadeira beleza está na sua capacidade de se reinventar sem perder aquilo que a torna genuína.
Precisamos, pois, de repensar Aveiro. Será que vale a pena sacrificar a identidade local e o bem-estar dos seus habitantes em nome de um crescimento económico baseado no turismo de massas? Ou será possível, por meio de estratégias bem demarcadas, criar um modelo sustentável que respeite a cidade, os seus residentes e o meio ambiente?
Sabemos que o turismo é uma ponte entre culturas, mas também pode ser uma força demolidora quando não é gerido com responsabilidade. Em Aveiro não é diferente e o desafio é encontrar um equilíbrio, para que o futuro da cidade não seja apenas uma breve recordação emoldurada em fotografias ou postais, mas um lugar autêntico e vivo.
A “explosão turística” não pode comprometer os valores culturais e ambientais que a tornaram única. Um turismo sustentável, respeita o ambiente e as tradições locais e a cidade não pode tornar-se um produto, uma espécie de cartão-postal vendável. Não a tornemos naquilo que os turistas desejam: uma perfeição artificial, onde a autenticidade parece escorrer pelos dedos.
Professora e Escritora














