Nestas últimas eleições legislativas, milhares de portugueses optaram por não votar. A abstenção foi uma das maiores da nossa democracia — mas este silêncio não é desinteresse. É frustração. É um grito mudo de quem já não acredita na política nem nos políticos. O povo não está alheado. Está desiludido. Profundamente desiludido.
Durante décadas, fomos assistindo ao desmoronar da confiança. Escândalo após escândalo: o caso da TAP, os colapsos do BES e do Novo Banco, os cargos entregues por afinidade política e não por mérito. A política tornou-se uma carreira de autopreservação, um palco de vaidades e jogos internos, onde quem devia governar em nome do povo governa sobretudo em nome próprio — ou dos seus.
A esquerda, que tantas vezes se apresentou como esperança de mudança, rendeu-se aos mesmos vícios que dizia combater. Repetiu fórmulas gastas, protegeu os seus, perpetuou um sistema de nomeações onde o que conta é o cartão partidário, e não a competência. O nepotismo tornou-se norma, não exceção.
E enquanto se discute no Parlamento, entre discursos vazios e indignações agendadas, o país real sufoca. O preço das casas dispara, os salários estagnam, os jovens partem, os hospitais colapsam e as escolas ficam sem professores. A justiça, essa, continua desigual: rápida para os fracos, indulgente para os poderosos.
Perante este cenário, muitos desistiram de votar. Mas talvez não devêssemos desistir. Talvez esteja na hora de transformar o protesto em algo visível, inequívoco e construtivo: o voto em branco.
Hoje, votar em branco é como gritar numa sala vazia. Mas e se esses votos contassem? E se, cada voto em branco representasse uma cadeira vazia no Parlamento? E se o silêncio passasse a ocupar espaço real? Cadeiras vazias onde deveriam estar representantes à altura. Espaços que denunciem, visivelmente, a falência de uma oferta política que não serve o povo.
Está na hora de discutir, seriamente, a reforma da lei eleitoral. Está na hora de exigir que o sistema reconheça que há eleitores que não se revêem em nenhuma opção — e que essa não-escolha seja respeitada como uma mensagem clara: não nos servem, queremos melhor.
Talvez, se começarmos a encher a Assembleia de cadeiras vazias, os partidos percebam a urgência de mudar. Talvez, com esse vazio simbólico a ocupar o lugar real, surjam finalmente estadistas. Homens e mulheres que pensem no país, e não apenas na próxima eleição.
Votar em branco, se passar a contar, pode ser o início de algo maior. Um novo contrato entre eleitores e eleitos. Um grito silencioso que já não possa ser ignorado.
Talvez assim, finalmente, a política volte a merecer o nosso voto.
ATÉ LÁ, MAIS DO MESMO!
Engenheiro/Colaborador







