Um ex-ministro da troika no Banco de Portugal? Claro, por que não? – Por Amadeu Ricardo

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A sério, já nem sei se ria, se chore ou simplesmente desligo o cérebro e aceito que este país está entregue aos mesmos do costume — agora com gravata lavada e currículo internacional para disfarçar o cheiro da naftalina política.

Álvaro Santos Pereira vai ser o novo governador do Banco de Portugal. Sim, esse mesmo. Aquele que foi ministro da Economia durante a troika. Aquele que defendeu os cortes, suspendeu feriados, e jurava que a austeridade era a única saída, como se cortar fosse sinónimo de crescer. Agora, esse mesmo senhor vai liderar o Banco que, em teoria, deveria garantir a estabilidade e independência financeira do país. Digam-me lá se isto não é digno de uma comédia trágica.

A última reunião da Concertação Social mostrou, mais uma vez, a fragilidade daquele modelo económico que vive à sombra do improviso e da precariedade. As propostas que saem na mesa – prolongar os contratos a termo, apertar a lei da greve, expandir os serviços mínimos – são vendidas como reformas estruturais. Mas o que vemos é exatamente o oposto: é a manutenção de um sistema que se alimenta de trabalho barato e das baixas expectativas.

O retrato nu e cru

Portugal continua preso a uma armadilha de baixo valor acrescentado:

Produtividade estagnada há duas décadas, ainda a rondar 70% da média europeia.

Salários que são metade dos da UE, apesar de a produtividade não justificar tamanha diferença.

Investimento 40% abaixo dos concorrentes europeus, um fosso que retira músculo ao país para inovar e crescer.

Carga fiscal sobre o trabalho superior à média da OCDE, empurrando a juventude qualificada para a emigração.


Esta não é uma fotografia estática, é um filme repetido: um país que quer parecer moderno, mas que insiste em tratar o trabalho como algo perfeitamente descartável.

O erro de copiar um modelo falido

A tentação de importar a lógica da flexibilidade norte-americana é evidente. O problema? Os Estados Unidos têm uma escala, um ecossistema de inovação e um mercado interno que Portugal não possui. Mesmo assim, o modelo americano está longe de ser exemplar: desigualdade recorde, milhões na “gig economy” sem uma rede de proteção social e uma economia que cria riqueza concentrada em poucos. Copiar a precariedade sem copiar a capacidade produtiva é algo como suicídio económico.

Cenários alternativos existem – e estão bem perto!

Portugal não precisa de inventar o impossível, temos artistas, mas não nesta escala, basta olhar para quem fez diferente:

Irlanda: combinou impostos competitivos com um investimento brutal em educação tecnológica e hoje tem um PIB per capita mais de 2,5 vezes o português.

Dinamarca: apostou em flexibilidade com forte proteção social e investimento contínuo em formação, criando um modelo de “flexigurança” em que gera emprego estável e produtivo.

República Checa: conseguiu subir a produtividade e os salários quando apostou numa indústria avançada e na retenção de talento.


Em todos estes casos, a chave foi a mesma: investimento estratégico, empresas com escala, salários que acompanham a produtividade e políticas públicas que olham e pensam 10 anos à frente, e não apenas para a próxima legislatura.


A escolha está ai!

Portugal está num ponto de viragem. Ou continua a mascarar a precariedade de modernização, ou assume que é necessário e urgente um choque:

Investimento massivo na inovação, educação, e retenção do talento e em empresas competitivas.

Salários dignos e que acompanhem a produtividade.

Políticas fiscais que libertem quem cria valor em vez de o penalizar.

Emprego estável com direitos sólidos como a base de um crescimento sustentável.

A Concertação Social pode ser uma ferramenta de progresso, mas não se constrói um país capaz com acordos que institucionalizam a fragilidade. O futuro não se negocia: constrói-se com coragem.

Um alerta necessário!

Eles estão onde estão porque foi o teu voto que os colocou lá. O poder que agora tenta moldar as leis, direitos e o teu futuro saiu diretamente da tua escolha — ou da tua ausência nela. Da próxima vez que tiveres uma oportunidade usa-a, quando te deparares com uma urna à frente, lembra-te: cada cruz conta, cada silêncio pesa. Esta direita não serve, e fechar os olhos não vai impedir que ela continue a avançar sobre o pouco que ainda é nosso. Pensa. Escolhe. E não deixes que decidam por ti.


Referências:

Jornal Económico – Produtividade em Portugal

Dinheiro Vivo – PIB per capita e OCDE

Jornal Económico – Investimento e PIB

Resistir.info – Salários e produtividade

Apátria.org – Gig economy em Portugal

Portugal entre a Precariedade e o Futuro


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