UE/EUA – Não é acordo! É ajoelhar e agradecer – Por Amadeu Ricardo

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Sou da área da engenharia. Não sou político, nem comentador de televisão. Mas sei olhar para uma estrutura e perceber quando ela está a ceder. E o que a Europa assinou com os Estados Unidos é uma racha tão grande que se ouve daqui. Chamam-lhe tratado. Eu chamo-lhe ajoelhar e dizer “sim, senhor” de caneta na mão.

Os números são de humilhar qualquer país com vergonha na cara: tarifas de 15 % a esmagar 70 % das exportações europeias, aço e alumínio com 50 % de penalização, e em troca de meia dúzia de promessas de investimento que valem tanto como as notas do Monopólio.

Em contrapartida, a União Europeia comprometeu-se a adquirir US$ 750 mil milhões em produtos energéticos dos EUA e a investir US$ 600 mil milhões na economia americana até 2028. Além disso, a UE concordou em abrir os seus mercados para os produtos americanos com tarifas reduzidas ou mesmo eliminadas.
Bruxelas chama-lhe “acordo histórico”. Histórico é. É o dia em que a Europa se assumiu como uma colónia de luxo dos EUA.

Do lado de cá, quem assinou foi a Ursula von der Leyen, ladeada por Valdis Dombrovskis e Josep Borrell, com a chancela dos “comissários” que ninguém elegeu — Margrethe Vestager, Thierry Breton e companhia. Esta é a “panelinha” que decide a vida de 450 milhões de pessoas sem nunca ter levado um voto meu ou teu.
E depois ainda falam em democracia…

Enquanto isso, olho para o Brasil e dá-me vontade de rir. Com eles, os EUA andam com pinças. 18 % das terras raras do mundo, nióbio, lítio. O Brasil tem as chaves do futuro. E nós? Nós temos líderes a correr para Bruxelas de penico na mão, com o rabo espalmado de tanto dizer “sim, senhora Europa”.

E cá no burgo, o filme é sempre o mesmo:
– Luís Montenegro, com aquele ar de contabilista satisfeito, a falar de “previsibilidade” como se a recessão fosse um plano de negócios.
– Joaquim Miranda Sarmento, no Ministério das Finanças, a fazer de conta que controla contas que já foram vendidas.
– Paulo Rangel, agora ministro dos Negócios Estrangeiros, a jurar que isto é “estratégia europeia”.
– Mário Centeno, ex-governador do Banco de Portugal, agora a pairar no ar à espera de colocação europeia, a falar de “resiliência macroeconómica” como se vivesse noutro planeta.
– E lá no Palácio de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa, sempre pronto para a fotografia e para o “soundbite”, a fazer a sua tal “magistratura de influência”, que na prática é só magistratura de obediência: abana a cabeça, dá abraços e assina em baixo enquanto o país vai pelo cano.

E depois temos o nosso amigo de sempre, António Costa, agora em Bruxelas, a fazer de bom aluno e aplaudir enquanto a casa arde. A diferença é que, desta vez, a casa não é Portugal — é o continente inteiro.

Digo isto como cidadão que observa: o nosso PIB vai encolher, a indústria automóvel vai levar pancada, o vinho e a cortiça vão ser esmagados pelas tarifas, e a Marinha Grande vai perder a pele com a concorrência chinesa e americana.

Escrevam o que digo. Vamos ver programas de “apoio” com nomes cheios de marketing — Plano Resiliência 2.0, NextGenPT, “Linhas de Mitigação”. Traduzindo: remendos numa barragem que está prestes a rebentar.

E quando a estrutura ceder, quando a Europa acordar e perceber que se vendeu por meia dúzia de promessas vazias, lá vamos nós outra vez: Portugal no fim da fila, de penico na mão, de joelhos e a dizer obrigado pela pancada. E vamos ver Montenegro a sorrir como se tivesse feito história, Paulo Rangel a engolir sapos e a chamá-los de estratégia, Joaquim Miranda Sarmento a falar em “rigor orçamental” enquanto a economia morre, e Mário Centeno a explicar com gráficos como é que a miséria afinal é “ajuste estrutural” enquanto espera um cargo em Bruxelas.

E ao lado, Marcelo, com aquele ar paternal, a dizer que é “importante manter a estabilidade” e a distribuir abraços enquanto carimba a nossa sentença de colónia com um sorriso de domingo.

Esta é a nossa tragédia: não temos líderes, temos lacaios com fato e gravata, treinados para obedecer a Bruxelas e a Washington, enquanto fingem que estão a governar um país.

Se isto é Europa, então chamem-lhe o que quiserem. Eu chamo-lhe colónia. E nós, portugueses, somos os criados que ainda têm de sorrir enquanto limpamos a merda no fim do banquete.

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