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Domingo, Janeiro 18, 2026

Perspectivas Linguísticas

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A língua portuguesa é muito traiçoeira. É uma daquelas frases que nos habituamos a escutar e, mesmo sem averiguar a sua veracidade, é utilizada vezes sem conta – muitas delas para justificar erros ortográficos ou meras calinadas.

Há muitos exemplos mas, uma vez que estou ligado ao mundo da ferrovia, vou aproveitar e utilizar o verbo colher. Sim, o verbo, e não o tal objecto metálico para a sopa ou sobremesa!

Quando usado no passado, é sinónimo de boa notícia. Por exemplo, se disserem que foram colhidas muitas toneladas de azeitonas, até se pode pensar numa redução do preço do azeite! É um verbo que significa obter algo (frutos, resultados) e está relacionado com o aumento da quantidade das coisas guardadas num celeiro ou outro local e, como tal, ninguém se opõe ou preocupa…

No entanto, essa mesma palavra, aplicada ao universo da ferrovia, ganha imediatamente outro significado e importância. É verdade que continua a ser um verbo, mas implica uma acção bastante penosa para o sujeito passivo. Afinal, num país que perde dezenas de vidas ao volante, é deveras curioso que a palavra colhido, associado a uma morte na linha férrea, cause tremendo impacto.

Até porque, chamar “acidente” à distracção ou facilitismo é enfatizar a estupidez, ou pior, normalizá-la. Recorrendo à sabedoria popular é uma morte santa: instantânea e súbita. E, já que abordo um tema tão macabro e mórbido, aproveito, para memória futura, indicar que (quando chegar a altura) pretendo morrer como o meu avô: dormindo, tranquilo e sereno. E não a gritar desesperadamente como os cinquenta passageiros do autocarro que ele estava a conduzir.

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