Sozinha. Sozinha nos seus vintes. Acabada de chegar, de mala na mão. E eu com ela, também sozinho, de mochila às costas, nos meus trintas, observando-a pelo poder da imaginação. Em comum? Nosso sangue. E esta cidade – Paris, setenta anos depois.
Para ambos, a primeira vez sozinhos, longe. Na guelra, o futuro? Ou a vontade hereditária de fugir, de nos exilarmos de nós mesmos, necessidade que nos é familiar?
Seu pai, meu bisavô, passaporteava até NY sempre que a sua mulher, minha bisavó, emprenhava no feminino. Esse feminino, do qual a minha tia fazia parte, e por ordem de ideias minha avó também, sua irmã, recebeu, mais tarde que cedo, a companhia grave de dois irmãos. Fora um milagre acompanhado pelo retorno do progenitor que se havia ausentado para os lados do estrangeiro. Ausentado não por fecundada curiosidade em palmilhar a Terra Nova, mas por vingança, para penalizar minha bisavó por ter escolhido trazer ao mundo seres, à época, frágeis, incapazes, dependentes, subservientes, inopinativos. Supostamente, inúteis. Ou seja, dar-lhe duma assentada, e sem pré-aviso, um rol de meninas.
Deixemos, no entanto, seu espírito em (de)leitos de descanso. Estamos em Paris, ainda, na época em que seu pai perdera tudo e se vira ela obrigada a plantar no desconhecido, a catar suas próprias oportunidades. Minha tia era essa. Eduarda não tinha medo de semear em terra arada. Na brava, qualquer um se dá bem, verdade?
Volto a observá-la e ela larga a mala nos pés, entre o espanto e a alegria, um rapaz corre ao seu encontro. Esse rapaz traz um grande ramo de rosas e traz um sorriso também. Será que se apressa a ser mais que seu amigo? Reconhece-a? De onde? E ela tão vermelha quanto o ramo, pronta a recebê-lo, abre o peito, fecha os olhos e estende os braços para trás numa de se equilibrar com o encontrão. Catrapumba! Seria invisível?
Envergonhada, sente o ombro, agarra a mala, levanta-se e baixa a pergunta: serão as flores para..? Outra? Outro. Que beija intensa e prolongadamente. É então que toma noção do mundo e se sente horrorizada. Pior, sente-se mais sozinha que nunca. Ninguém a espera. Ninguém a conhece. Ninguém se importa. Viajara para se encontrar consigo própria?
Vinda de uma pequena vila do norte – onde o comboio sempre passa sem trazer novidades, minha tia, nos natais, recordava a terra sem chão que havia sido França à chegada, recuperando esta estória recorrentemente, ainda incrédula com a possibilidade de amor entre dois homens – não desse amor por irmandade e admiração, mas do outro que arrelia tantos. Nesse tempo da narrativa, enquanto ela bebia seu uísque com gelo, eu calava-me a ouvi-la tal-qual a oiço agora ao aguardar pelo metro em Orly, em trabalho, setenta anos depois, com o conforto da rede digital, com mapas eletrónicos e a vantagem do domínio da Língua Inglesa. Ela, que nem o francês arranhava, viria a governar a casa de um ministro, deixando comigo, além das memórias, seus ensinamentos de etiqueta, de culinária e geografia. Deixando também a expectativa de colorir a minha visão de vermelho, a qualquer momento, com o ramo de rosas que deverá entrar na plataforma antes de a abandonar.
Escritor














