Eu, curiosamente, estava no Carmo, em Lisboa, mais precisamente na Academia de Música, que o meu querido amigo Carlos Bica tem se pronunciado ultimamente pelo possível despejo da mesma!
O Carlos estava no terceiro ano de contrabaixo e eu no primeiro, com esse grande professor Fernando Flores! Passei em frente à cervejaria Trindade e ia encaminhar-me para casa, quando ouço uns tiros…O senhor do quiosque em frente chamou-me e eu corri. Assim que lá cheguei, o quiosque foi fechado e ficamos a aguardar no escuro…O que seria? Nenhum de nós conhecia a resposta…
O tempo passou, os tiros passaram e passou muita gente aos gritos e eu sem nada saber…Só soube quando cheguei a casa, embora os meus pais pouco soubessem!…
Fascismo nunca mais! 25 de Abril Sempre! Assim se vê a força do PC! E muitos mais slogans que para mim nada significavam…
Ia sempre passar as férias escolares a casa dos meus queridos avós (que saudades!). Uma dessas tardes, o meu avô chega a casa, com lágrimas nos olhos!
– Avô o que se passou?
– Passei em frente ao Partido Comunista fui insultado, quase agredido!
O meu avô foi guarda republicano, salvou tantas pessoas da PIDE, provavelmente familiares de alguns que o insultaram…O meu avô retirou da corda dois homens, vítimas de interrogatórios e de agressão física e psicológica, com os testículos desfeitos e os agentes da PIDE, depois de os matarem, enforcavam-nos para desviarem atenções…(foram eles que se enforcaram…)
Um dia, estava eu a atuar no bar da Estação em Montemor-o-Novo, no final do concerto, veio um senhor muito bem posto ter comigo e disse:
– António, o teu avô não era um piano de parede, muito menos ¼ de cauda, o teu avô, era um piano de concerto! Os meus queridos pais já tinham partido há muito, se o teu avô não os tivesse resgatado, das garras da PIDE!
No início dos anos 80, conheci um grande músico e um grande homem! Luís Cília!
Só agora, ao fim de tantos anos, estão a dar valor à sua obra!
Cília foi o primeiro cantor a entrar para o PCP, e o primeiro a sair…
Compôs o seu hino,“Avante Camarada”. Falou-me na altura, da forma como o partido tratava o Adriano Correia de Oliveira (mal). Vim para o Porto há trinta e nove anos e a minha segunda mulher mostrou-me a almofada manchada de sangue, na altura em que o Adriano só conseguia ingerir líquidos!…Ainda passei uns meses nos Olivais, em casa da sua filha.
Toquei com quase todos os cantores de esquerda e gravei com uma boa parte deles, conheci o verdadeiro feitio do José Afonso, num concerto que realizei com ele em Aveiro, sua terra Natal. Trabalhei muito com o José Mário Branco, um arranjador genial! Aprendi muito com ele. Um dia chego ao estúdio e ele comenta que escreveu um arranjo para oito baixos elétricos! – Oito baixos! O Vitorino vai-me matar!
Quando o Vitorino chegou ao estúdio, tentei estar um pouco afastado…Mas ele perguntou logo por mim…- Ferro! Que merda é esta?…Respondi prontamente: – Foi o Zé que escreveu o arranjo…Mas ficou bonito! Se não fosse o José Fortes, nunca o teria conseguido gravar. Uns anos antes, pela mão de um amigo de infância – Mário Laginha, pertenci ao coro do GAC – Grupo de Ação Cultural. Foi lá que conheci a mãe de meu filho…
Durante alguns anos, cheguei a gravar dois discos por dia…”Lavrar no teu Peito” Janita Salomé, “Sinais de Sena” Luis Cília, “Despertar dos Alquimistas” Fausto Bordalo Dias, “Quem Canta Seu Mal Espanta” Pedro Barroso, “Histórias de um Homem Qualquer” Carlos Alberto Moniz, e mais alguns que a memória não ajuda…
Uns anos mais tarde, recebi um telefonema do maestro Pedro Osório, para lhe encontrar um pianista e um baterista que fossem bons de leitura. Foi fácil, Telmo Marques no piano e Francisco Cardoso na bateria. O projeto chamava-se “Só Nós Três”, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo e Carlos Mendes. Eu morava no prédio do Centro Comercial, na Rua 5 de Outubro e no R/C morava o Avelino Tavares do “Mundo da Canção”. Quando o informei do nosso cachet (músicos), ele interrompeu-me e disse: – Ferro, sabes quanto vai ganhar cada cantor e o maestro?
– Não faço ideia –respondi eu…
– É mais do que dez vezes o vosso cachet!
Aí lembrei-me de uma conversa de um deles, muito indignado, quando o Paco Bandeira dizia a viva voz que ganhava dez vezes mais que os músicos. Então, mal cheguei ao Casino de Estoril, disse à rapaziada para ficar no carro. Saí e pedi para falar com o diretor do casino. Consegui que os músicos que partiram do Porto, auferissem dez vezes menos que os cantores…
Por isso meus caros, esta conversa de igualdades…Não passa do papel…
Aprendi com o Luís Cília uma frase que me tem seguido pela vida fora…
“Os portugueses têm a memória curta…”
O nosso 25 de Abril, ao contrário do que é proclamado, teve sangue sim!
Morreram pelo menos quatro ou cinco pessoas…
Conquistámos a Liberdade! O direito à nossa opinião sem irmos presos, o direito a votar livremente, e muitos mais direitos…Agora direito à igualdade (?)…
PS: A razão da queda do PCP, é que Álvaro Cunhal, só houve um…
CONCERTO SÓ NÓS TRÊS-FERNANDO TORDO, PAULO DE CARVALHO E CARLOS MENDES NO CASINO ESTORIL-1989 https://www.youtube.com/watch?v=YPAQgQ5PD0s&t=3s
Músico/Colaborador














