Quando há muitos anos, muitos anos principiei a redigir as minhas primeiras linhas numa vetusta máquina de escrever, ainda a nossa democracia não existia, jamais imaginei chegar a esta altura da minha vida e ter a confiança suficiente para dar luz e vida aos meus escritos.
Ao receber o convite honroso de colaborar com O Cidadão, sonhei que um jornalista tem a obrigação de o ser até morrer. E por me lembrar de sonhos, aprendi que o sonho é um fenómeno complexo, que ocorre maioritariamente durante a fase REM (Rapid Eye Movement) do sono, caracterizada por intensa actividade cerebral. Embora a ciência ainda não tenha uma resposta única e definitiva, acredita-se que os sonhos resultam de uma combinação de processamento de memórias, regulação emocional e actividade cerebral aleatória. Não tenho quaisquer dúvidas que o sonho possa estar relacionado com a combinação de processamento de memórias. E por quê? Porque todos nós já passámos pelos mais diversos sonhos e, normalmente têm a ver com memórias remotas ou recentes.
Acontecem sonhos da maior diversidade: pesadelos incompreensíveis, viagens a locais que nunca imaginámos, familiares já falecidos que nos dão conselhos, lotaria que nos contempla com uma boa maquia, ganhar uma corrida de automóveis ao volante de um carro que nunca vimos, ir ao leme de uma barco à vela quando nunca entrámos num veleiro, discutirmos sobre um tema que aconteceu há décadas, enfim, uma panóplia de acontecimentos no subconsciente, dos quais ao acordarmos, de nada nos lembramos a não ser que tivemos um pesadelo horrível e, por outro lado, temos sonhos que nos lembramos de tudo o que aconteceu e, na maioria das vezes, ficamos quase todo o dia a meditar no sonho que aconteceu e sobre o seu significado ficando tão ignorantes como anteriormente.
E uma noite destas tive um sonho, curiosamente do qual ao acordar lembrei-me totalmente do que se tinha passado e até me deixou desolado. Então, não é que um amigo e camarada de longa data com quem privei reportagens, aventuras e convívios estava no meu REM de uma forma explícita e dolorosa. O sonho estava a transmitir-me algo de horrível e a deixar-me lavado em légrimas, porque esse grande amigo tinha falecido. Ao acordar e ao recordar-me do que tinha sonhado até parecia que estava a enxugar os olhos com o lençol.
Fiquei magoado com o sonho que me tinha calhado em sorte e a pensar no que me tinha sucedido ao longo do sono. Por volta do meio-dia disse para comigo que teria de afastar a porcaria do sonho da mente e liguei ao meu bom amigo. Atendeu-me o seu filho e disse-lhe: “Olá, estás bom? Que tens feito? Continuas a jogar Hóquei em Patins?… Olha, passa aí o telefone ao teu pai, se fazes favor!”… A resposta foi fulminante: “O pai morreu ontem à noite…”.

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