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Sábado, Dezembro 6, 2025

O quarto dos dias que restam

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“Existem notícias e reportagens sobre a dificuldade crescente dos idosos em suportar os custos da habitação, que por vezes os leva a alugar um quarto.”

Há notícias que nos atravessam como se fossem lâminas silenciosas. Esta é uma delas: os reformados de pensões baixas, empurrados para quartos, porque as rendas se tornaram inalcançáveis. Onde está o lar, a casa, o ventre de todas as coisas? Quartos – não são casas, não são lares, não são lugares de pertença. Apenas e só, espaços sem identidade, alugados, onde se cabe por necessidade, não por vontade. É nestes quartos que se deixa a vida empacotada à espera de melhores dias que talvez nunca cheguem.

Penso nesses homens e mulheres que trabalharam uma vida inteira, que pagaram impostos, que ajudaram a erguer este país de pedra e suor. Agora, na fase em que o corpo pede descanso e o coração anseia apenas por um pouco de sossego, encontram-se exilados dentro da própria pátria. Viver num quarto é, de algum modo, ser reduzido ao mínimo da existência. É deixar de ter cozinha para o café demorado, varanda para o sol da manhã, fotografias nas paredes; é ter a vida pendurada por laços a desfazerem-se – como se o amanhã fosse sempre provisório.

Não basta o estado vir falar em políticas, desconetadas com a realidade, apoios e complementos. Não é de números que se faz a dignidade humana. É de respeito, de cuidado, de reconhecimento. Estas pessoas não pedem luxo; pedem chão seguro, teto sem medo, silêncio que não doa. E, no entanto, a velhice tornou-se um território de sobrevivência.

O que está a acontecer no meu país que nos desconcerta os dias e a alma?

Olho à volta e pergunto-me: o que esperamos nós, como sociedade, daqueles que um dia seremos? Porque todos, mais cedo ou mais tarde, caminharemos para esse tempo em que a força se recolhe e a memória se senta connosco à mesa – um trilho inseguro e pedregoso. Não devíamos permitir que esse tempo fosse vivido na insegurança ou na desesperança.

A velhice devia ser o lugar do merecido descanso, não o do desalojamento. Devia cheirar a pão quente e a livros antigos, não a corredores partilhados e portas que se fecham depressa demais. Onde o olhar nunca se cruza, tantas vezes pela vergonha de dividirem o mesmo barco.

O quarto dos dias que restam devia ser amplo – cheio de vida, de lembranças, de paz. Não um abrigo temporário, mas o espaço último da dignidade. E talvez o maior sinal de civilização esteja, afinal, na forma como tratamos quem já deu tudo o que tinha para dar.

Não basta lamentar. É urgente repensar a política de habitação, as pensões e o valor simbólico que atribuímos à velhice. Uma sociedade que fecha os olhos aos seus idosos é uma sociedade que perde a memória, e, quem perde a memória, perde também a alma.

Todos sabemos, se não andarmos distraídos, que as políticas sociais devem ser mais robustas por forma a não por em risco a vida dos que trabalham e sempre trabalharam para erguer um país para todos.

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