O trabalho de Cristina Cattaneo

A maior tragédia do Mediterrâneo
A 18 de abril de 2015, a aproximadamente 100 quilómetros a norte da costa líbia, o mar transformou-se num cemitério. Uma velha embarcação de pesca azul, com cerca de 23 metros de comprimento, afundou-se levando consigo entre 700 e 900 pessoas. Apenas 28 sobreviveram, resgatados pelo navio mercantil português King Jacob. Os restantes ficaram presos no fundo do Mediterrâneo, a 370 metros de profundidade, durante mais de um ano.
A mulher que dá nome aos mortos
Cristina Cattaneo, diretora do LABANOF (Laboratório de Antropologia e Odontologia Forense da Universidade de Milão), conhecida pela sua capacidade de dar voz às vítimas, assumiu uma missão impossível: restituir identidade às vítimas que o mundo queria esquecer.
Uma corrida contra o tempo e a burocracia
Em junho de 2016, após uma operação de 9,5 milhões de euros, a Marinha Italiana recuperou o destroço. O que encontraram desafiava qualquer descrição: mais de mil corpos inteiros e fragmentos ósseos misturados. Corpos que tinham permanecido na água salgada durante meses, degradados, quase irreconhecíveis.
A lei indicava que não havia obrigação legal de os identificar. Os traficantes já tinham sido presos. O caso estava juridicamente encerrado. Mas Cattaneo recusou-se a aceitar essa conclusão.
O milagre da solidariedade científica
O que aconteceu a seguir foi extraordinário: 80 cientistas de 13 universidades italianas trabalharam voluntariamente durante três meses. A Marinha criou um necrotério improvisado no mar. Os Bombeiros abriram o porão do barco. A Cruz Vermelha disponibilizou camiões frigoríficos gigantes.
Durante dois meses, incluindo noites inteiras, realizaram centenas de autópsias. Cada uma durou muitas horas. Catalogaram mais de 20 mil restos ósseos que ainda hoje aguardam identificação no LABANOF.
Os desafios de uma cientista
Debora Mazzarelli, antropóloga do LABANOF, explica a dimensão do desafio: “Os corpos permaneceram na água marinha durante meses ou mais de um ano. Os dados genéticos estão degradados.”
O que os bolsos revelaram
Oitenta corpos tinham documentos consigo. Vinham de países como Senegal, Mali, Mauritânia, Eritreia, Sudão, Guiné-Bissau, Somália e Costa do Marfim. A grande maioria eram jovens do sexo masculino.
Nos bolsos das vítimas, a equipa de Cattaneo descobriu histórias de vidas inteiras: uma caderneta escolar cosida ao interior do casaco de um rapaz do Mali de 14 anos. Um saquinho com terra do país de origem amarrado à camisola de um jovem eritreu. Uma carteira com passaporte, cartão de biblioteca, cartão de estudante e certificado de dador de sangue.
Camisolas de equipas de futebol. Livros. Escovas de dentes. Doces encharcados de água. Um Corão. Um rosário budista. Uma cruz ortodoxa.
“O conteúdo das malas dos nossos rapazes”, comentou Cattaneo. “Mais eloquente do que qualquer discurso contra o racismo.”
O resultado doloroso
Após dez anos de trabalho: apenas dois corpos identificados do naufrágio de 2015. Quarenta do naufrágio de 2013.
Cattaneo não esconde a frustração: “Tocámos nos corpos destas pessoas e mexemos nos seus bolsos para lhes dar uma identidade. O que encontrámos confirma-nos que estes são adolescentes normais com sonhos e esperanças, como os nossos filhos.”
E acrescenta, com amargura: “Não existe a nível europeu um projeto como o nosso de identificação. A Europa não pensou em replicá-lo: não nos escuta, não nos presta atenção.”
O apelo ao Parlamento Europeu
Em março de 2022, membros do Parlamento Europeu escutaram Cristina pela primeira vez. Mas até hoje, pouco ou nada mudou.
Cattaneo repete constantemente que se os países europeus trabalhassem em conjunto, seria possível identificar os desconhecidos.
É apenas uma questão de vontade política.
O preço da dignidade
A verdade é simples e brutal: são necessários 250 euros para investigar cada crânio através da análise de ADN dos dentes.
Fazendo as contas: mais de 300 crânios catalogados multiplicados por 250 euros correspondem a mais de 75 mil euros.
O preço de dar um nome, uma identidade, uma dignidade a centenas de seres humanos que morreram a tentar chegar à Europa. A Europa, que gastou 9,5 milhões de euros para recuperar o destroço do fundo do mar, não consegue encontrar estes fundos para identificar as vítimas.
Um morto sem nome é uma história sem fim
No LABANOF, em Milão, continuam conservados cerca de 20 mil restos ósseos. Cada fragmento catalogado, fichado, à espera de um familiar que talvez nunca chegue.
Cristina Cattaneo continua o seu trabalho, sozinha contra a indiferença da Europa. Como ela própria diz: “A identidade é o que fomos, é a memória, mas está também naqueles que sobrevivem.”
O barco que ninguém quer ver
O casco da velha embarcação de pesca azul que se tornou um túmulo para centenas de pessoas teve uma jornada quase tão trágica quanto a viagem que realizou.
Depois de ser recuperado em 2016 e levado para Melilli, em Siracusa, para a remoção dos corpos, o barco foi cedido em 2019 à cidade de Augusta. O artista suíço Christoph Büchel expô-lo na Bienal de Arte de Veneza com o nome “Barca Nostra” (O Nosso Barco), transformando-o num símbolo que deveria “continuar a interpelar as consciências de todos.”
Em abril de 2021, o barco regressou a Augusta, onde deveria ser o coração de um “Giardino della Memoria” (Jardim da Memória) – um espaço público de reflexão e dignidade para as vítimas.
Mas dez anos depois da tragédia, o casco jaz abandonado na nova darsena de Augusta, coberto por um toldo branco, exposto às intempéries, rodeado de painéis fotovoltaicos, andaimes e carros estacionados. Fechado ao público, exceto nos aniversários. Um símbolo esquecido.
“Se existem alternativas ao silêncio em que está relegado neste momento, se devemos escondê-lo do mundo e existe outro lugar onde isso não aconteceria, talvez seja melhor que vá para lá”, diz resignado Enzo Parisi, vice-presidente do Comité 18 de Abril.
No fundo do Mediterrâneo, ainda há centenas de histórias por contar. E uma mulher italiana que se recusa a deixá-las morrer em silêncio.
Fontes
Cattaneo, Cristina. Naufraghi senza volto. Dare un nome alle vittime del Mediterraneo. Raffaello Cortina Editore, 2018.
Università degli Studi di Milano. LABANOF – Laboratório de Antropologia e Odontologia Forense. Departamento de Morfologia Humana e Ciências Biomédicas.
Vita.it. “Strage del 18 aprile: lo scheletro della memoria è il simbolo di 10 anni di indifferenza.” Vita.it, 18 de abril de 2025.
Open. “Le vittime del naufragio del 18 aprile 2015 nel Canale di Sicilia erano 1100.” Open, 20 de dezembro de 2018.
Linkiesta. “Cristina Cattaneo: I migranti morti in mare? Per gli italiani sono vite di serie B.” Linkiesta, 9 de maio de 2019.
Famiglia Cristiana. “Cristina Cattaneo: La mia battaglia per dare un nome alle vite perse in mare.” Famiglia Cristiana.
Wikipedia. “Naufragio nel Canale di Sicilia del 18 aprile 2015.” Consultado em 4 de maio de 2025.
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