Matilde pisou a areia quente da Praia das Princesas — a praia da sua infância. O coração batia apressado, não pelo calor do verão, mas pela expectativa de rever a avó Josefa; não a via há mais de seis anos. Cada passo naquela praia parecia um mergulho na memória. A brisa salgada trazia-lhe de volta os verões da infância, quando corria descalça com os cabelos ao vento, e a avó Josefa a olhava com ternura.
A vida, nas suas voltas e andanças, afastara-as, mas um telefonema recente —cheio de ternura e saudade, trouxe-as de volta uma à outra.
Não queria esperar mais. Aproximou-se da avó Josefa que estava sentada no velho banco de madeira, com um chapéu de palha e um sorriso que Matilde reconheceu de imediato, como se o tempo nunca tivesse passado. Era ali que se sentavam, à sombra do pinheiro-manso, para ouvir as histórias de princesas e peixes dourados que a avó trazia em mágicos sacos de pano.
— Minha querida Matilde! — exclamou a avó, abrindo os braços. — Quantas saudades!
Num abraço demorado viram-se por instantes, nas longas tardes à beira-mar. O mesmo mar que se estendia à frente delas, o mesmo amor.
Caminharam lado a lado, com as ondas a molhar-lhes os pés e o silêncio a preencher os espaços entre palavras soltas.
Sentaram-se na areia húmida e começaram a recolher conchas, como nos velhos tempos. Cada concha era uma memória, um pedaço de infância, uma história que só elas conheciam. A avó fazia questão de as relembrar e Mariana ouvia, completava, sorria e abraçava.
— Lembras-te de quando fazíamos castelos e tu apanhavas conchas? — perguntou Josefa, com os olhos perdidos no passado.
— E tu dizias que as conchas eram coroas para as princesas do mar… — replicou Matilde com um sorriso nostálgico.
— A tua preferida era uma grande, luzidia, cor-de-rosa. Dizias que ias ser rainha dos mares.
Matilde riu-se, um riso suave, como o mar naquela tarde calma.
— Se calhar ainda posso ser. Mas preciso da minha conselheira real.
Com as mãos cheias de conchas voltaram ao banco de madeira onde Josefa estendeu uma manta de tiras coloridas.
Da cesta de verga saíram uvas, bolachas de aveia — as que adoçavam a infância de Matilde e uma garrafa de sumo fresco. Nada mudara, pensou ela.
— Às vezes penso que nos perdemos, Matilde…
— Não nos perdemos, avó. Apenas deixámos o mar entre nós por um tempo. Mas ele trouxe-nos de volta.
— É verdade. O mar tem destas coisas. O mar leva, mas também devolve.
O sol já começava a cair, pintando o céu de laranja e rosa. Uma brisa suave arrefecia a tarde.
Matilde pousou uma concha branca nas mãos da avó.
— Esta é para ti. Uma nova coroa.
— Então que reine o amor que nos une — respondeu, comovida.
E ali, entre o som das ondas e o calor dos afetos reencontrados, avó e neta souberam que o tempo pode afastar corpos, mas nunca corações que se amam.
Durante uns dias o sorriso reinou na Praia das Princesas.
Professora e Escritora














