O Chá

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IV – O calor do interior sobrepõe-se ao frio do exterior…

Lá fora, a neve continuava a cair, ou talvez fosse apenas uma chuva miúda que se misturava com o gelo nos telhados. Marta preparava o chá na cozinha enquanto Tomás observava a dança da fumaça que saía da chaleira. Cada gesto ganhava vida e aconchegava.

Tomás olhava a chávena de chá e mexia-o lentamente, fascinado com a forma como o líquido escuro se misturava e ondulava. Marta sentou-se ao lado dele, tomando a sua chávena quente nas mãos. O aroma a erva-cidreira espalhou-se pela cozinha, preenchendo o espaço com uma calma que nem a neve lá fora conseguia romper.

O inverno é bom” dizia Tomás, baixinho, mais para si do que para Marta.

É, não é só frio. É tempo de ficar dentro de casa. De ouvir, de sentir.”

Durante algum tempo, ficaram apenas ali, sentados juntos, observando as gotas de água escorrerem pela janela, os flocos de neve que se prendiam nos ramos, e o silêncio que se tornava presença. Cada palavra que trocavam parecia medida, cada riso pequeno resplandecia no espaço como se fosse música.

Tomás encostou-se a Marta e sorriu. “Quero que este momento dure sempre.”

Marta apertou-lhe a mão e, sem precisar de palavras, compreendeu. Alguns momentos não duram para sempre, mas existem com toda a intensidade necessária. O inverno ensinava-lhes que o calor não vem apenas do aquecedor, mas também de gestos simples, da companhia silenciosa e da atenção ao que acontece agora.

Sabiam das intempéries que fustigavam o país, mas nos braços um do outro sentiam-se protegidos.

Quando finalmente se levantaram para guardar as chávenas, o mundo lá fora continuava frio e distante. Mas dentro, havia uma luz própria, quieta e firme, que só os dias de inverno sabem acender.

Um chá quente é mais do que uma bebida; é presença, é cuidado, é ternura líquida.


Continua…

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