Mito versus Lenda – Por Carlos Silva

Mais artigos

Para começar, o mito difere da lenda. A lenda é uma história em que se torna indistinta a diferença entre a realidade e a ficção. De acordo com o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “a lenda é uma narrativa de caráter maravilhoso (…) em que um facto histórico se amplifica e se transforma sob o efeito da evocação poética ou da imaginação popular“. Ou seja, a lenda tem um fundo de verdade. É no contexto das lendas que se fala da Padeira de Aljubarrota, de quem se diz que “era tão feia e tão grandalhona que muitas vezes se fazia passar por homem!“, ou da Sopa de Pedra de Almeirim.

Um mito é, contrariamente à lenda, uma narrativa sem fundo de verdade. No dizer de Mircea Eliade, o mito “narra uma história sagrada; relata um acontecimento ocorrido durante o tempo primordial, o tempo fabuloso dos “começos”, in illo tempore.” E prossegue Eliade: “dito de outro modo, o mito conta como, graças às ações primordiais dos seres sobrenaturais, surgiu um facto qualquer, quer se trate da realidade total – o cosmos – ou apenas de um dos seus fragmentos – uma ilha, um comportamento humano, ou uma instituição.” O mito é, pois, uma “história sagrada“. É uma história, porque relata como as coisas apareceram e sagrada, porque as personagens que nelas intervêm não são seres humanos, mas deuses ou semideuses.

Na História da Filosofia, o mito é normalmente apresentado como o despertar da razão ou do pensamento racional, ou seja, o mito é uma etapa pré-racional da evolução humana. Contudo, dizer que o mito é pré-racional não é afirmar que ele é irracional. Com efeito, o mito não é destituído de “razão”. É, antes, a forma com que os povos primitivos pretendiam explicar o mundo onde viviam. Mais: de acordo com François Châtelet, “o que começa conserva, em parte, aquilo contra o qual começa e o que rompe integra elementos daquilo de que se separou.” Por isso, não será correto afirmar que a seguir ao mito, o pensamento se racionalizou ou se tornou totalmente racional.

Não haverá, pois, uma rutura absoluta entre “mito” e “logos”. De resto, ontem como hoje, as mitologias continuam a responder a muitos dos nossos anseios, enquadram a nossa cultura, criam elos e reforçam o sentimento de pertença à tribo. Ainda que a humanidade não tenha permanecido para sempre ligado aos esquemas de uma consciência mítica, os mitos continuam a despertar, na nossa sociedade tecnológica e científica, a curiosidade e o pensamento e a desempenhar funções didáticas e pedagógicas.

image_pdfimage_print
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img