Dizem que o progresso não se trava, mas em Matosinhos parece que ele se mede pela sombra. O
novo plano de ampliação do Terminal de Contentores de Leixões promete-nos o futuro, mas um
futuro que, curiosamente, tem 80 metros de altura, é feito de aço e vem tapar o horizonte a quem
cometeu a ousadia de querer viver junto ao mar.
É fascinante a lógica da “eficiência”, temos o privilégio de ter o melhor peixe do mundo e uma
orla costeira que é o recreio das famílias do Grande Porto. Mas, aparentemente, o que nos faltava
para a felicidade plena eram mais umas centenas de contentores empilhados, servindo de biombo
entre a cidade e o Atlântico. Quem não sonhou em mergulhar na Piscina das Marés, joia de Siza
Vieira, com a visão poética de uma muralha de metal a erguer-se ali ao lado? Ou quem sabe, ver
o icónico Farol de Leça, que outrora guiava navegantes, agora a tentar competir em protagonismo
com guindastes gigantescos?
Dizem-nos que isto trará emprego e até uma nova marina. É uma ideia curiosa, teremos barcos de
recreio a tentar encontrar o seu espaço num cenário de “David contra Golias”, onde o lazer das
famílias sobrevive à sombra de gigantes logísticos.
Na Europa que gostamos de citar nos relatórios, os portos modernos escondem-se, enterram o tráfego e devolvem as frentes marítimas às pessoas. Por cá, preferimos o estilo “monumental”: se é para expandir, que se veja de Marte. Que se note na desvalorização de quem investiu a vida numa casa com vista para o mar e passará a ter vista para um armazém vertical.
Convém perguntar, que tipo de cidade queremos deixar? Uma plataforma logística gigante onde
as pessoas são meros figurantes entre camiões, ou um lugar de lazer onde as famílias podem
passear sem ter este “monstro” a vigiar cada passo?
A nossa identidade é feita de salitre, surf e gente, não de logística e pórticos. Se o progresso exige que asfixiemos a alma da cidade para alimentar o terminal, talvez o problema não seja a falta de espaço, mas sim a falta de visão.
Matosinhos e Leça não podem ser apenas o “quintal de descargas” do Norte. Afinal, entre um
Porto que engole a cidade e uma Cidade que vive do seu Porto, a escolha deveria ser óbvia. A
menos, claro, que o plano seja substituir o nosso famoso peixe por conservas de betão.

Shipchandler














