Hoje já não tenho dúvidas e sou Social Democrata: grande parte daquilo a que chamamos consciência política é apenas uma encenação colectiva que vem alimentada pelo medo, frustração, ignorância e interesse.
Vivemos num tempo que está terrivelmente doente. E a doença mais perigosa já não é a económica nem a social — é a intelectual.
Criou-se uma geração incapaz de pensar para além da superfície. Pessoas que confundem informação com o conhecimento, o ruído com a cultura, a repetição com a verdade. Gente que nunca leu um livro até ao fim, nunca questionou seriamente as próprias convicções, nunca suportou o desconforto de desmontar aquilo em que acredita. Mas opinam sobre tudo com uma arrogância que digo quase fanática.
E é precisamente aí que nasce o extremismo moderno.
O extremista raramente é alguém intelectualmente sólido. Pelo contrário. O extremismo cresce quase sempre em terrenos frágeis, emocionalmente frustrados e intelectualmente inseguros. Pessoas sem profundidade interior agarram-se a ideias radicais porque necessitam desesperadamente de pertencer a alguma coisa maior do que o vazio que carregam dentro delas.
O fanatismo político tornou-se o refúgio dos intelectualmente preguiçosos.
Pensar exige esforço. Exige leitura. Exige confronto interno. Exige admitir que podemos estar errados. O extremista não quer pensar — quer obedecer. Quer slogans simples, inimigos fáceis e culpados imediatos. Precisa de transformar o mundo num discurso infantil onde existem apenas heróis e monstros.
E os políticos sabem perfeitamente disso.
Por isso alimentam a ignorância. Um povo que pensa é perigoso. Um povo que questiona é impossível de manipular. Já um povo emocionalmente inflamado, dividido em trincheiras ideológicas e permanentemente distraído com guerras artificiais, torna-se um alvo fácil de controlar.
A política moderna descobriu que não tem necessidade de cidadãos conscientes. Precisa apenas de consumidores emocionais.
Mas existe algo ainda mais grave: perdemos a coragem de sermos indivíduos.
Fomos lentamente educados para abdicar daquilo que nos tornava únicos. Hoje quase ninguém quer correr o risco de pensar sozinho, de ter uma voz própria, de assumir uma posição fora da manada. A diferença assusta porque exige personalidade. E personalidade exige estrutura interior.
Então escolhe-se o caminho mais confortável: ser igual.
Igual na opinião. Igual na indignação. Igual na forma de falar. Igual na forma de pensar. Igual até nas revoltas supostamente “rebeldes”.
Criou-se uma sociedade onde milhares de pessoas acreditam serem livres enquanto repetem exactamente os mesmos discursos, os mesmos tiques morais e as mesmas opiniões fabricadas.
A individualidade tornou-se uma ameaça social.
Quem pensa de forma autónoma é imediatamente atacado, catalogado ou silenciado. Não interessa se tem razão. O importante é que rompe a uniformidade da tribo. E a tribo moderna não suporta pensamento livre — suporta apenas a validação colectiva.
Hoje compram-se consciências como quem compra publicidade. Compra-se o silêncio, a militância, os aplausos e as indignações programadas. Compra-se até a moral daqueles intelectuais de ocasião, os comentadores reciclados e os falsos defensores da verdade que mudam de opinião ao ritmo das conveniências e do dinheiro.
Vivemos cercados de prostitutas ideológicas. Pessoas sem a coluna vertebral e “tomates”, sem coerência, sem carácter, mas com um talento extraordinário para sobreviver dentro do sistema.
E o que mais me revoltante é que muitos deles são tratados como as referências morais.
A política deixou de ser um lugar de serviço para passar a ser um negócio de influência, ego e vaidade. Já não se escolhem os mais competentes nem os mais lúcidos. Escolhem-se os mais mediáticos, os mais agressivos, os mais manipuladores. Vence quem domina melhor o medo colectivo.
E enquanto isso o pensamento sério vai desaparecendo.
As redes sociais criaram uma humanidade ansiosa, reactiva e intelectualmente dependente de uma validação constante. As pessoas já não reflectem — reagem. Já não estudam — partilham. Já não analisam — atacam.
Vivemos na era da opinião instantânea produzida por gente que não suporta cinco minutos de silêncio consigo própria.
E depois perguntam porque cresce o radicalismo.
Cresce porque há uma profunda frustração colectiva. Uma geração inteira que foi educada para parecer inteligente sem nunca desenvolver pensamento crítico verdadeiro. Deram-lhes diplomas, slogans motivacionais e as falsas sensações de importância, mas nunca lhes ensinaram a disciplina mental, a interpretação histórica ou a profundidade humana.
Resultado: adultos emocionalmente frágeis, intelectualmente superficiais e facilmente manipuláveis.
A mediocridade tornou-se a maioria. E quando a mediocridade se torna a maioria passa a perseguir qualquer forma de profundidade como se ela fosse uma ameaça.
Quem pensa incomoda. Quem lê demasiado incomoda. Quem questiona incomoda. Quem não pertence às tribos ideológicas incomoda ainda mais.
Porque obriga os outros a confrontarem-se com a própria pobreza intelectual.
Há muito tempo que deixámos de viver numa sociedade verdadeiramente racional. Vivemos numa feira emocional onde vence quem grita mais alto, quem manipula melhor e quem consegue transformar ignorância em identidade política.
E talvez esta imagem bíblica continue a ser a mais cruelmente actual de todas: quando deram ao povo a possibilidade de escolher entre o Barrabás e o Cristo, escolheram o Barrabás.
A multidão quase nunca escolhe a consciência. Escolhe aquilo que vai alimentar os seus impulsos mais primitivos.
Talvez por isso a História avanca tão devagar apesar de toda a tecnologia, toda a ciência e toda a suposta evolução civilizacional.
Continuamos intelectualmente vulneráveis para não dizer diminuídos. Continuamos manipuláveis. Continuamos fascinados pelo espectáculo da mediocridade.
E no meio disto tudo resta uma brutal pergunta:
qual é hoje o lugar daqueles que ainda insistem em pensar livremente, preservar a sua individualidade e não vender a consciência ao medo, à tribo ou ao dinheiro?
E no fim disto tudo, o mais triste nem é a existência de políticos corruptos, vendidos ou sem carácter — disso a História sempre esteve cheia. O mais assustador é perceber que há milhões de pessoas a bater palmas à própria miséria intelectual como se isso fosse uma vitória.
Criou-se uma sociedade onde qualquer idiota com meia dúzia de frases feitas vira um pensador, onde a ignorância ganhou a confiança e onde pensar a sério passou a ser quase um defeito social.
E depois admiram-se do estado do país.
Mas o país não está doente por acaso. O país é o reflexo exacto da coragem, da inteligência e da consciência das pessoas que o sustentam. E quando uma maioria prefere pertencer à manada em vez de ter personalidade, quando prefere slogans ao pensamento, barulho a profundidade e fanatismo a lucidez, então não há lugar para milagres.
Há só decadência.
Porque a verdade é esta, dita sem floreados: um povo que perde a capacidade de pensar sozinho acaba sempre ajoelhado diante de alguém que pensa por ele.
ACORDA!
Engenheiro/Colaborador














